Homens e Livros…

October 6, 2004  |  Literatura

Em suas próprias palavras, condenado a ser o Andersen desta terra, Monteiro Lobato abriu os olhos das crianças para um Mundo das Maravilhas, onde se dava a releitura da história e das fábulas, integrando culturas e despertando a curiosidade.

Não sei se você teve a oportunidade de ler algum dos dezessete volumes das Obras Completas de Monteiro Lobato mas, se não teve, deveria gastar um tempinho procurando para seus filhos e – por que não? – para você mesmo ler.

A coleção é dividida em duas séries, uma adulta, com treze volumes e esta, da qual estou falando, com dezessete inesquecíveis portais para o Mundo das Maravilhas de Lobato – uma espécie de projeto de assimilação cultural que usava de personagens originais para fazer a criança ter contato com uma miríade de outras obras ficcionais e momentos históricos reais.

Para mim, Monteiro Lobato foi o responsável pelo meu primeiro contato com a literatura, contato esse promovido pela Dona Lourdinha, minha mãe e amiga que usou de livros e muito amor para me fazer entender a tolerância, a justiça e a virtude.

Sem críticas vazias ao modus vivendi de hoje, concordo profundamente com a máxima de Lobato: “Um país se faz com Homens e livros”. No meu entender, não se trata de Homens e revistas, Homens e brochuras ou Homens e blogs.

Embora a tecnologia aí esteja, a praticidade, custo e a base instalada de eBooks estão muito aquém do que seria necessário para substituir os livros convencionais para cento e setenta milhões de brasileiros – dos quais uma grande parte sequer sabe ler.

O interesse pela leitura, batalha inglória travada por uma minoria de pais, não é substituível por qualquer outro interesse. A música é um meio, o cinema é outro, a TV um terceiro – ainda que sucateado – e cada um deles cumpre um papel no crescimento da criança como pessoa. Não ler por opção é como não tomar vitamina B por opção. Por mais que não se morra disso, os sintomas são identificáveis e as sequelas dificilmente podem ser combatidas a contento.

Antes de saber ler eu ouvia Dona Lourdinha me contar as histórias. Era, para mim, um super-poder dos adultos, sorver com os olhos os rabiscos das páginas dos livros; maior ainda o poder de contar histórias, se envolver com elas e, ainda assim, cuidar das lágrimas e dos risos nervosos que um eu-criança não conseguia conter.

A conquista da leitura enquanto habilidade, da escrita enquanto forma de expressão e das pessoas que te lêem enquanto espectadores, pode ser tão mágica quanto viver no mundo de Lobato…

…e como ele mesmo disse:

“Tentei arrancar de mim o carnegão da literatura. Impossível. Só consegui uma coisa: adiar para depois dos 30 o meu aparecimento. Literatura é cachaça. Vicia. A gente começa com um cálice e acaba pau d’água na cadeia”.

São Paulo, 16/6/1904

Minha super-heroína não me faltou, nem aos futuros netos, achando os dezessete volumes e presenteando essas já grandes mãos de criança com o saudoso tesouro literário.

Se escrever é uma cachaça de fato, bem queria eu que tivéssemos mais beberrões a cada esquina, com o dedilhar em teclados a substituir as goladas e soluços.

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2 Comments


  1. "Dona Lourdinha"

    Meu amor pelos livros foi despertado exatamente da mesma forma. Pelas mãos de sua avó fui levada ao mundo mágico de Lobato.
    Tenho certeza que você honrará a tradição e fará de seus filhos pessoas completas e inteiras, prontas e abertas a pensar e escolher, cidadãos íntegros e capazes de influir.
    Isso só se alcança com muita leitura.

  2. José Vasconcellos

    Eu li!…

    TODOS, desde “Reinações de Narizinho” até “Urupês”, passando por todo aquele ninho de textos.
    Há pouco tempo estive com um “Caçadas de Pedrinho” nas mãos – edição nova (e revisada) – um livro “politicamente correto”, ninguém mata a onça, apenas capturam-na. Estou esperando para ver um “A chave do tamanho”, será que as mortes foram abolidas nessa “releitura”?
    De todas as indecências da “cultura nacional” atual, o vilipendiar dos textos originais de quem gritava “o prtróleo é nosso” há mais de 50 anos atrás, é a pior de todas.
    Agora o “correto” é curvar-se ao “politicamente correto” pouco se lixando para o simplesmente correto.

    Ainda estamos longe, muito longe! Como disse a D. Lourdinha:

    “Isso só se alcança com muita leitura!”

    Mas muita mesmo!