“Nada é para Sempre”

April 17, 2005  |  Cinema

Em Montana, na década de 30, ao sopé das Montanhas Rochosas, dois rapazes crescem aprendendo acerca da vida e das coisas. Pastor presbiteriano que perdeu a mulher cedo, seu pai usa do Fly Fishing, sua maior paixão, para passar valores a dois irmãos em tanto tão diferentes e que, ainda assim, têm tanto em comum.

Pode-se falar da beleza geográfica por tomos e mais tomos, mas o fato é que a fotografia de Philippe Rousselot (“Constantine”, “Peixe Grande”, “Entrevista com o Vampiro” e “Rainha Margot”), sob a direção de Robert Redford, são os grandes responsáveis por fazer o espectador sentir-se mais e mais imerso nas águas, só para então ser fisgado.

Tom Skerritt está magnífico, balanceando a religiosidade e moral cristãs com suas noções individuais do mundo a sua volta e sua responsabilidade como pai. Não sendo seguido muito de longe, em sua competente atuação, pelo já tão subestimado Craig Sheffer e por um Brad Pitt cuja a atuação está além das expectativas de qualquer fã dedicado.

O amante de cinema que precisa de ação ou efeitos especiais para manter a atenção, ou mesmo aqueles que acham que filmes têm de ter uma estrutura do tipo A ou B para ser bom, talvez não gostem tanto do que vão ver… e adiante eu falo mais sobre uma obra e a necessidade de esforço ou sacrifício, para entendê-la.

Fato é que, a despeito de uma bela e envolvente história – e mesmo da suposta intenção de autores, roteiristas e diretores – trata-se de um filme que pode permitir ao espectador mais que simplesmente observar o que está acontecendo, propondo a imersão em uma mensagem tão cristalina quanto as águas do Rio Big Black Foot.

“Nada é para Sempre” guarda muito menos relação com o que se passa na tela e muito mais com o que aquilo tudo pode significar.

Recentemente, Cristiano Dias, grande amigo, mandou-me um site com fotografias artísticas, tiradas nas estradas dos E.U.A. e que mostravam os enormes logos de empresas de petróleo, normalmente sustentados por altos postes, mas cuidadosamente editadas para parecer que os logos permaneciam ali por uma força invisível, sem nada para segurá-los. Pacientemente vi todas as fotos, sem no entanto ser capaz de estabelecer qualquer relação com aquilo que estava vendo, até que um texto, escrito pelo autor das poses, me chamou a atenção.

No texto, o fotógrafo explicava que sua intenção fora acentuar, através do remover dos sustentáculos daqueles grandes estandartes, em quanto pode as marcas, as corporações e os conceitos ali dispostos parecem estar acima do Homem, acima de todas as coisas, como se nada fosse mais importante. Foi-me feita uma pergunta curiosa, recentemente, num destes bares da vida, quando contei esta história: “Mas, Bruno… você não acha que é muito ruim que a obra precise de uma bula para poder ser ‘lida’?”.

A pergunta, muito pertinente, tem profundo efeito… Mas de fato não entendo que seja necessária uma bula, apesar de o autor ter-nos fornecido uma. Se eu, sem ler a bula, “não gostei” do que vi, ou não entendi a obra como proposta pelo autor, ainda assim pode haver aqueles que dela “gostaram”, ou entenderam a obra conforme a proposta. Há ainda aqueles que identificaram na obra mensagens não propostas pelo autor e que, ainda assim são belíssimas, brilhantes… ou não.

Seja como for, a identificação de significado em produção de subjetividade ou obra de arte é fruto da capacidade de interpretação do espectador, de sua vivência, de seu momento, de sua disposição e de estar afeito a associar, com ou sem sacrifício ou esforço, a realidade do que vê com a realidade do que está dentro dele.

Mais que isso, identificar subtexto é uma das coisas que o Homem mais faz, seja olhando para belas pinturas, estranhas pinturas, paredes texturizadas ou um muro pintado sem capricho.

No meu entender, fazemos isso também com o que não é feito pelo Homem, a cada vez que olhamos para a Lua, para um Rio ou diretamente para o Sol e, individualmente, pensamos quão belas são tais coisas, quão magistral é a obra de Deus ou quão admirável é a complexidade do mundo regido pelas leis da Física.

Parece-me que identificamos significado a todo tempo e em todas as coisas e é desta forma que fazemos senso da realidade… é assim que construímos nossa realidade, para além do Real, desenhando uma linha entre o que acreditamos estar lá e o que lá efetivamente está.

Todo o significado identificado por nós e responsável pelo construto que individualmente damos o nome de “realidade”, ainda que divergente do Real e do que efetivamente existe, guarda um mérito formidável e irrepreensível… sendo a manifestação de tudo que o ser humano pode ser.

Por mais discrepante que seja este construto, ainda assim o mérito de pensá-lo é inequívoco. A interpretação de uma obra ou conceito é a obra do espectador e pode ser igualmente apreciada, da mesma forma que a poesia que descreve, como bela, a mais corriqueira das situações… ou como a alegoria visual, que mostra o Homem a pescar significado no rio da vida.

Para o personagem de Tom Skerritt, o Reverendo Maclean, as semelhanças que identificou entre o Fly Fishing e a vida, foram demais para serem ignoradas e passou – mais através desta prática que através de sua religiosidade – a ensinar seus filhos, Norman e Paul Maclean.

Se, ainda que eventualmente, a arte de pescar o significado – onde pode não haver – nos proporciona belos quadros, parece-me valer a pena sacrificar-se um pouco, não optar pelo óbvio e pelo superficial, mas molhar a cabeça em nome de uma outra verdade, ainda que não seja aquela que esperávamos.

Ser objetivo e pragmático – sem motivos utilitários específicos – é a desculpa moderna que nos damos para observarmos o mundo por uma janela estreita.

Uma passagem do filme em particular, na voz de Robert Redford – uma transcrição direta do romance “A River Runs Through It”, de Normal Maclean – é um dos textos mais comoventes e significativos que já li em toda minha vida. Como o barulho da água nas pedras, aquelas palavras ecoam em todas as direções, ao pensar nas coisas pelas quais já passei e pelas que ainda vou passar.

Clique aqui para ouvir a narração


“But when I am alone in the half light of the canyon all existence seems to fade to a being with my soul and memories.”

“And the sounds of the Big Black Foot River and a four count rhythm and the hope that a fish will rise.”



“Eventually, all things merge into one… and a river runs through it.”



“The river was cut by the world’s great flood and runs over rocks from the basement of time.”

“On some of the rocks are timeless raindrops. Under the rocks are the words, and some of the words are theirs.”



“I am haunted by waters.”

E já que estou falando do significado oculto das coisas, sendo ele intencional ou não, há muito a se dizer…

Cada uma das coisas que acontece em nossas vidas não é mais que um evento… tão importante quanto a queda de uma folha de árvore sobre a correnteza de um rio. Do ponto de vista da pequena folha, contudo, o turbilhão à sua volta é tudo o que existe e o eventual choque contra as pedras magoa o tanto de sentimento que ela se permite ter.

Se à superfície a folha sofre tanto, quando submersa e entregue tudo fica mais tranqüilo, sem tanto barulho e sem tantos solavancos.

“De vez em quando é preciso respirar”, imagina… mas mal sabe a pequena folha que, quando abandona as árvores que a enraizava à margem do rio, não mais precisa do ar que acha que respira.

A vida pode ser tão mais fácil ou difícil quanto nos dispomos a permitir que ela seja…

Perder a noção, já estreita, do que está por vir – entre as ondas e a espuma que a correnteza faz – ou tentar intuí-lo a partir do que já passou, não te ajuda o quanto quer nem te oferece a paz que precisa para ser feliz.

Megulha, então… Mergulha e vive o tanto que pode, imersa nos próprios sentimentos, sem se agarrar a um devir de segurança que talvez sequer exista.

Viver o resfolegar na superfície, tentando divisar um horizonte fugidio, é não se permitir ir a fundo no que se vive.

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6 Comments


  1. Finalmente!!! E ainda não vi esse filme…

  2. Olhei para a capa logo no início do post e concluí: ainda não vi este filme. E continuei um pouco mais. Alguns segundos depois reconheci, mais pelas fotografias pinçadas, o filme que havia visto há alguns anos. Lembro de ter gostado muito do filme. Não pela profundidade intencional, mas pela simplicidade e despojamento que acabam dando um tom maior. É muito belo visualmente. A fotografia consegue mostrar tudo da beleza desta particular atividade de pesca. Lembro que vi muito deste subtexto ao qual o Bruno se refere. E sempre tive a impressão de que vi mais neste filme do que ele realmente tinha. Agora, parece-me, o Bruno também. Recomendo.
    Alguns comentários adicionais:
    1) esse pequeno espaço para escrever os comentários desencoraja a escrita
    2) segurança é um delicado equilíbrio entre ignorância e alienação, convém preservá-lo
    3) faltou o endereço das fotos das empresas de petróleo mencionadas

  3. adorei teu blog, posso linkar no meu?

  4. Apenas uma palavra.
    “MARAVILHOSO”

  5. Realmente é um lindo filme, o qual já assisti 4 veses, e não me envergonho em dizer que chorei como criança todas as ocasiões.
    Nada é para sempre é um retrato da vida real. Uma história sem ápices extremos, sem fenômenos grandiosos, sem interferências mesquinhas feitas apenas para prender a atenção, e mais, sem sentimentalismo romântico e barato.
    A compreensão do filme limita-se a sensibilidade, ao encontro a si mesmo, sensações potencializadas quando se é um pescador aficcionado.
    Dois momentos do filme são de estrema beleza:
    Quando o personagem de Pitt, antes da sua morte, e após ter dito ao irmão que jamais abandonaria Montana, se entrega de maneira esplêndida a pescaria da maior das trutas.
    A outra passagem é o final, aonde o único remanescente, já sem esposa, velho e solitário, continua pescando/vivendo apesar das dores e do vislumbre do fim.

  6. Quem é você?
    Alguem que surgio das montanhas?
    Ou das águas do rio?
    Alguem com bastanta sabedoria!
    Quem sou eu?
    Uma simples pessoa com apenas a quarta classe, mas que ama o saber!
    Não conheco o filme, mas adorei ler o que está aqui escrito!
    Obrigada, por ter entrado dentro da minha simles escrita.

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