A Companhia de Atores Invisíveis - invisiveis.subtom.com.br - re-estreou “Expectantes” na Casa de Cultura Hombu, na Lapa, dia 30 de Maio. Toda quarta-feira eles estão lá… e eu fui assistir.

É difícil não usar de superlativos ao falar do trabalho da Companhia nesta “instalação”, sim, porque se trata muito mais de uma instalação do que de uma peça simplesmente.
Engajada e comprometida com um método e uma filosofia de criação e encenação, a Companhia me dera a oportunidade de participar de um ensaio da peça, que muito me impressionou mas que perdeu as cores quando tive a oportunidade, ontem, de ver o espetáculo.
Todos os sócios da
foram então intimados a assistirem a “Expectantes” como cortesia… e que cortesia.
A instalação - como não me canso de chamar - usa bem o espaço amplo da Casa de Cultura e, já de cara, faz alusão a um teatro mais clandestino, ativista e inquieto, quase setentista. Ao entrar, o espectador dá de cara com um vídeo acerca do processo de criação da Companhia e com uma estrutura de cortinas brancas e aparato de luzes e som para todos os lados. O charme enigmático da disposição das coisas, objetos pelo chão e do palco no nível da platéia acabam embalando-nos e preparando-nos para algo diferente.
Quando as luzes se apagam e começa a apresentação, com truques cenográficos simples e poderosos, não é difícil imaginar que vai se tratar de um teatro mais conceitual, intimista e hermético… uma espécie de balé de expressão teatral. Mas o roteiro, os atores e o clima da instalação, pela primeira de muitas vezes vai quebrando todas as nossas expectativas, seja de forma sutil ou violenta.
Com direção de Marcio Moreira e Jorge Leite, direção musical de Kátia Jórgensen e preparação corporal e direção de movimento de Tiago Quites, a Companhia mostra a que veio exibindo uma peça ambiciosa e ousada por sua profundidade temática e riqueza na elaboração.
A expectativa é o ponto nevrálgico da instalação da Companhia e ela se mostra na figura trágica de todos os personagens, em suas inadequações, inseguranças, ingenuidade, desilusões, fraquezas e em sua maldade.
O Palhaço, vivido por Márcio Moreira, e sua sacola de truques, têm um charme todo especial e um timing sensacional para a comédia física sutil; a Cigana (Marcela Rodrigues), seus panos e cartas, impõe um ritmo oscilante entre a realidade comezinha e a esperança de um supra-sensível que nos seja vantajoso; o Carteiro (Tiago Quites), rico em vícios, crenças e complexidades, é a personagem que carrega consigo não só as cartas, mas a responsabilidade de chamar à palavra os demais; a Noiva, personagem trágica e enérgica, cheia de dor e sempre a espera do noivo que a deixou no altar, vivendo uma montanha russa de sentimentos magnificamente interpretados por Kátia Jórgensen; e o Travesti, incorporado brilhantemente por Jorge Leite, invocando do nosso imaginário a marginalidade e violência em cada pequeno gesto que ameaça fazer em qualquer direção.
“Expectantes” não é uma peça teatral fácil, não tem a intenção de ser pop e nem de ser óbvia. O contato com uma forma de expressão mais sutil e menos denotativa que conotativa, creio, é profundamente importante para adultos e jovens e não raro é ouvir comentários divertidos e contra-intuitivos dos espectadores na saída do teatro.
Em um papo informal na Taberna do Juca, depois da peça, Kátia me falou de uma miríade de detalhes e minúcias que são de percepção difícil - e por vezes impossível - no trabalho deles: as falas fragmentadas atiradas a esmo no “palco” e na platéia, sílabas desconexas de frases Existencialistas, sorteadas depois de misturadas e remontadas para fazer um texto; subtextos do nosso imaginário coletivo que fazem referência desde ao folclore até a cultura pop televisiva; o uso da música de acaso (ou aleatória), que se utiliza, de forma não convencional, da voz, de objetos e do ambiente, criando um clima sinestésico que relaciona sensações e sentimentos através da música.
Entre risos nervosos e apreensão da platéia é palpável a curiosidade de quem está em volta, confinado entre as quatro cortinas que rapidamente se tornam paredes, uma caixa inviolável em que o espectador sensível tem a possibilidade de sentir-se dentro de si mesmo - mas acompanhado - rindo junto e sofrendo o embaraço de partilhar com quem está em volta as cenas que vão do engraçado ao grotesco… a chamada “quarta parede” não existe, estamos lá dentro com eles… e o maior dos palcos é aquele do qual jamais vamos conseguir fugir.
Partindo da expectativa – uma constante em seus personagens e em todo ser humano – a Companhia de Atores Invisíveis desvela diante de nós um parque de diversões imaginário, dispondo-nos uma cenografia do impossível diante dos olhos - emprestada do que há dentro de nossas cabeças.
Vemos ali o que todos sabem que existe, mas que ninguém vê. Não divisamos ali o que as personagens vêem porque, no caso, não importa. O parque de diversões da vida fica insignificante e transparente diante da espera na fila-da-nossa-vez.
Os Atores Invisíveis entregam o que se supõe entregar, uma estória sobre a qual não fazem sombra, jamais se interpondo entre o conto e o ponto de vista do espectador… gerando reflexão, instigando sensações e provocando a sensibilidade numa vida que é cheia de som e fúria.

Invisíveis . O webSite
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Yoshi Oida . O webSite oficial
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Junho 21st, 2007 at 11:36 am
É brilhante!
Emocionante ver o que fazem com tão poucos recursos.
Não entendo bem sobre a arte de interpretar… e ainda assim saí de lá melhor do que entrei. E por mais contraditório que possa parecer… pensei bem depois: texto é pesado sim, causa impacto, ansiedade… e por isso é tão bom; é uma condição da peça. Eles são muito bons. Gostamos muito!
:o)