Mozilla Seabird e o Tao do projeto de celulares

É assombroso como as coisas estão se transformando… Há 26 anos eu era ridicularizado ao dizer para os amiguinhos que um dia todos teriam telefones portáteis e que a tecnologia walk-talkies e rabos-de-porco provavelmente ia sofrer grande impacto com isso.

Deixando de lado o fato de que eu NÃO era a alma da festa e de longe o cara mais popular da turma, é preciso compreender que, na época, eu torcia para que este futuro chegasse logo.

Temos de entender o contexto… Não existiam celulares, o computador pessoal mais poderoso na época era o TK 85 – ao menos no Brasil, enquanto não chegava o CP 200/300 (muito caros na época), MC1000 (CCE) e o TK 90/95. A coisa estava preta em termos tecnológicos, era o fim da ditadura, entusiastas de computação eram considerados doidos varridos, a revista Microsistemas era uma das poucas coisas interessantes que saiam nas bancas e a Cultura Nerd estava longe de passar a fazer parte da Cultura Pop.

Depois de todo este tempo, com 39 anos, percebo que boa parte de tudo o que sonhei aconteceu… mas o pesadelo é que as coisas vem acontecendo em detrimento de todo o resto. Papo chato toda vida, sobretudo para que acha que “Vivemos um dos mais maravilhosos momentos para se viver”, percebo que – se o monstro que engoliu Hollywood foram os efeitos especiais – o monstro que nos engoliu foi o Tecnologismo, a reboque do Cientismo.

Certo, certo… quem cria a demanda sempre foi quem quis vender um produto, mas depois de testemunhar uma década de abusos das empresas de telefonia e de tecnologia telefonica eu perdi um pouco a paciência com a pré-venda de idéias 50% prontas mas 100% vendáveis. Por mais de 10 anos nos venderam protótipos de celulares sem qualquer qualidade em nome de uma agenda secreta de ir financiando o desenvolvimento tecnológico de melhores aparelhos.

Enquanto TODAS as empresas metidas no desenvolvimento de telefones celulares fazia a coisa como bem entendia coalhando as prateleiras e galerias de produtos em sites com centenas de dispositivos concorrentes e cujo funcionamento eu considerei sempre um lixo, empresas de tecnologia como a PALM tentavam fazer a coisa funcionar de uma forma diferente e, não aguentando as pressões do mercado, acabaram ficando em segundo plano.

O fato é que quando a Apple lançou o primeiro modelo do iPhone, não havia nada parecido por aí e foi como se, de repente, uma nave espacial alienígena caísse do céu e todos finalmente pudessem acreditar que aquilo era possível.

Lançado a 29 de Junho de 2007, o iPhone não tem até hoje equivalente de outra empresa. Não importa o que você pense ou diga, a experiência de nenhum aparelho é tão agradável em termos de usabilidade ou conceito funcional quanto aquela oferecida pelo iPhone.

Alguma coisa está fora da ordem quando, no lançamento do novo iPhone – equipado com o iOS 4 – resolve-se que o novo iPhone tem sérios problemas com recepção, quando sua recepção é melhor que a de todos os telefones do mercado e quando os problemas apontados atingem a TODOS os aparelhos já desenvolvidos, mas com menos intensidade no iPhone.

A Apple não estará para sempre na frente do mercado de telefonia celular, creio eu, mas até hoje nada apareceu para desbancar não só sua tecnologia, mas o modelo de negócio que envolve o aparelho – a saber… iTunes (app)Store.

O mais curioso, entretanto, é que além de o nível de Apple haters esteja aumentando, a empresa está se encaminhando para ser a mais bem sucedida do mundo, com uma economia maior que a da Microsoft.

Um sintoma da forma como vemos hoje a tecnologia, que é o real motivo de eu resolver escrever hoje, é que os maiores concorrentes do iPhone não passam de idéias, conceitos e fantasias da imaginação de projetistas que, muitas vezes, jamais terão a condição de levar suas idéias para frente, seja por falta de um bom sistema operacional ou de tecnologia para desenvolver o hardware em si.

A cabeça do consumidor é o que me assusta, a mentalidade de quem olha um exercício de imaginação como o que publiquei acima e comenta coisas como “Este telefone dá um couro no iPhone”.

Para o conceito eu dou nota 10, apesar de visíveis avanços nas patentes de mais uma dezena de empresas, mas para quem olha para esta obra de ficção e acredita que é tão simples fazer com que algo assim exista e cumpra sua função de forma aceitável eu diria para passar longe de filmes de ficção científica.

Um produto bem feito é mais que sua aparência e é muito mais que o tamanho de sua lista de funcionalidades. O Seabird é uma graça mas, além de profundamente semelhante ao que vimos no filme “A Ilha”, é um exercício vazio de imaginação se sua interface de usuário não tem o gabarito de, digamos, um iOS – ou mesmo o de um Androide, apesar de o modelo de negócios não me impressionar muito.

Me parece, por vezes, que agora que aprendemos que a tecnologia pode fazer muito, passamos a achar que ela pode fazer tudo, quando é necessário muito mais do que somente tecnologia para fazer com que a experiência de uso de um dispositivo seja centrada no Homem e não na tecnologia que é mero veículo para sua funcionalidade.

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