Sem título, na verdade, em português, “Roots of all evil?” é um magnífico tratado ateísta, comprometido com ideais mecaniscistas que invocam uma Moral independente de Religião, não se furtando a atacar todas as formas de Religião (ou ao menos as poucas formas abordadas no documentário) e oferecer uma alternativa para o que se convencionou chamar nos últimos séculos de “O Sentido da Vida”.
Profundamente bem editado, produzido, escrito e dirigido, o documentário “Roots of all evil” é um achado para qualquer leigo crente no ideal Mecaniscista Científico, que abraça uma vida ateísta sem culpas e que tenta justificar a existência de uma Moral para além da tradição religiosa.
O documentário avança sobre a tradição Cristã de forma nunca vista por mim e é um deleite para os espectadores que não suportam a idéia da religiosidade nos tempos modernos.
Feliz na tentativa de mostrar que a Moral independe do pensamento religioso, o documentário instiga o questionamento de postulados milenares e da realidade “opressiva” criada pela Igreja Católica, Protestante e Evangélica.
Como encarnação de Carl Sagan - autor de “Cosmos” - contudo, Richard Dawkins, em minha modesta opinião, deixa muito a desejar, largando de lado o Humanismo e tolerância de Sagan para assumir o Método Científico e as conquistas da Ciência como forma única, determinista e absoluta de entender o Universo, sob o pretexto de que “o conhecimento científico progride e o conhecimento Religioso sequer evolúi”.
Sem desejar estragar muito das surpresas e dos incisivos argumentos de Dawkins, posso dizer o seguinte: Se você deseja assumir uma posição, este vídeo pode te ajudar, mas se você quer saber a verdade, sugiro que veja este vídeo com outros olhos.
A verdade é que o que deve ser ensinado nos colégios não é a verdade acerca das coisas, mas a história e os detalhes acerca dos diferentes modelos criados por homens e mulheres - estejam estes modelos na moda ou não.
A Ciência não deveria ter precedência sobre qualquer outro modelo, concebido a partide de qualquer outra Metodologia - Religiosa, Filosófica ou Científica - e, portanto, aprender sobre o postulado Cristão (litúrgico) do Design Inteligente é tão importante quanto aprender sobre a teoria Científica (falsificacionistas) da Evolução.
O que me preocupa, nisso tudo, é que digladiamos acerca de se deve ser ensinada uma ou outra, quando devíamos ensinar ambas e, mais que isso, devíamos ensinar, adicionalmente, Teologia e Filosofia para as próximas gerações - e não apenas Cristianismo ou Ciência.
Afinal, Cristianismo não é a única forma de Religião (muito menos o Catolicismo, Protestantismo ou o Evangelismo) e Ciência não é a única Escola Filosófica!
Sim, porque a Ciência é só mais uma Escola Filosófica! E há muitas outras por aí. Talvez não tão populares mas, com certeza, algumas delas são até muito mais influentes - ainda que o leigo em Filosofia jamais tenha ouvido falar delas.
O “Cientismo”, inclusive, foi uma forma muito eficiente de transformar a Filosofia não em sua Mãe-Ideológica, mas em uma filha postiça, através do ato de tornar a Filosofia em parte das chamadas “Ciências Humanas”, o que é quase “sacrílego”, uma vez que a Filosofia não faz uso do Método Científico!
Richard Dawkins, em seu brutal ataque à Religião, menciona que a Fé - a Crença na Inexistência de Evidência - é uma ameaça ao futuro de nossa civilização, mas ele mesmo menciona que, para uma criança, é importante acreditar nas figuras de autoridade que lhe são apresentadas no início de sua vida.
O Ceticismo, no princípio da infância, pode levar à morte. E isto é um fato interessante, pois aponta para uma questão cuja raíz filosófica é mais profunda do que se imagina: “Questionar a autoridade é importante?”, e o interessante desta pergunta é que ela não tem uma resposta simples - ainda que eu sinta um forte impulso em responder que sim (o que é um impulso Liberal de bases Anarquistas herdado da mesma civilização onde você, eu e Richard Dawkins nascemos).
Será, portanto, que é tão imperativo que tentemos suprimir politicamente a Religião? Não seria isso tão inadequado quanto suprimir a Ciência ou, vamos lá, afinal, já suprimimos a Filosofia faz tempo, como coisa arcáica…
O que me parece é que, depois de se acostumar às ferramentas que inventou, o Homem esqueceu-se de como usar as mãos e coisas mais fundamentais como a Filosofia - sua capacidade de fazer senso de seu meio - cairam no esquecimento.
É este o futuro que queremos pra nós? Um reducionismo induzido pelos resultados alcançados por uma única metodologia? Um único pensamento?
Queremos que seja ensinado apenas o que é considerado absolutamente certo, sob as lentes azúis do microscópio que nos tinge o branco de azul?
Uma cultura mais ecumênica, liberal e tolerante perde em mérito para uma cultura absolutista, reacionária e determinista?
Dawkins declara ACREDITAR que a inclinação para um comportamento Moral está embutido em nosso Genoma - claro, sempre ante a citação das suas misteriosas (ou nem tanto) evidências, que também são interpretações do que a Ciência observa em seu entorno, embora nem todos os cientistas concordem - e, em “Roots of all evil?”, seu interlocutor, Oliver Curry (London School of Economycs), menciona que a Moral (ou uma Proto-Moral) é anterior à Religião, uma afirmação ousada e instigante, que sugere que há Moral em criaturas “menos evoluídas” que o Ser Humano, como os Chimpanzés.
Talvez, a Religião tome para si - ou para Deus, ou para as Escrituras - a obrigação (ou faça uma tentativa) de codificar a Moral contextual da época através da expressão da Palavra de Deus.
Seja como for, as perguntas estão aí e, a meu ver, são muito mais interessantes que as respostas!
Procure encontrar “Roots of all evils?”, veja com seus olhos, interprete com sua mente e tire suas conclusões… se possível, tente tirar mais de uma conclusão, do contrário, você só estará sendo um preguiçoso com pouca imaginação e com a não-rara habilidade de concordar consigo mesmo!