Mai 31

(via Colmeia.tv)

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Mai 25

Eu já gostava da versão original em inglês, mas esta tem tudo a ver comigo. Quem me conhece vai entender. Quem não conhece, ria à vontade da “remasterização” =)

O original de “Star Wars Sun Screen”, no YouTube.

A versão original de “Sun Screen”, no YouTube.

A versão original de “Sun Screen”, no YouTube

A versão catastrófica… “Filtro Solar”, com Pedro Bial, no YouTube

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Fev 13

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Out 06

“Tenho quase absoluta certeza de que, de repente, é possível que seja provável que minha vivência justifique, sem sombra de dúvida, que talvez eu possa presumir acertadamente o comportamento futuro de um indivíduo, baseado na observação do comportamento pregresso da coletividade.”

É difícil ser menos conclusivo e mais incoerente. Mas nós mesmos declaramos algo muito parecido cada vez que, irresponsavelmente, usamos de generalismos para julgar uma pessoa ou um grupo.

E o que é o generalizar? Há mais de um sentido, mas o que mais se adeqüa aqui é: “Afirmar, de forma infundada ou não, que algo é verdadeiro em grande parte de situações, ou para a maioria das pessoas”.

Fazemos isso o tempo todo, seja ao dizer que “só um por cento das pessoas lê sobre Filosofia”, seja ao afirmar que “só dez por cento dos telespectadores vê a TV Educativa” ou que “é muito pouco provável que não exista vida fora da Terra”. Todas estas pressuposições se baseiam em estatísticas intuitivas, sem bases, puramente ancoradas no preconceito e descaradamente fundamentadas em uma experiência limitada da realidade – ainda que sejam verdadeiras!

Será que é interessante nos acostumarmos a pensar assim? Será que é responsável e justo? Será que é bom? Ou será que é reducionista, superficial e tolo?

Acostumarmos-nos a ser levianos em análises simples – por nos parecerem elas menos importantes – nos condiciona a fazer vista grossa em julgamentos mais relevantes. Um bom exemplo são afirmações como “mulher ao volante é um perigo constante”, ou mesmo ditos populares como, “pau que nasce torto morre torto”.

Antes de qualquer coisa, para os defensores dos ditos populares como “a voz do povo é a voz de Deus”, só tenho a dizer que não é lá muito coerente que se afirme que “mais vale um pássaro na mão que dois voando” quando também se diz que “quem não arrisca não petisca”.

Os generalismos estão em toda parte – sem querer ser generalista – mas mesmo que eu esteja errado quanto a sua fartura em aparecer por aí, veja só o perigo que é generalizar:

“Todo político é salafrário!” – diz ela com desprezo para o recém conhecido.

Ele, tentando não se sentir ofendido – “Ahn… Assim… Literalmente? Todo mesmo?”

“Claro! Todo político! Não tem um que preste.” – Afirma categórica.

Um tanto sem graça ele pergunta – “Mas como você sabe, se não conhece todos?”

“Eu conheci o número suficiente de políticos para saber!” – Postula.

Não sei quanto desse diálogo o leitor teve a oportunidade de presenciar, mas não é difícil imaginar os problemas dele advindos.

Em tendo concluído que Com Certeza Todo Político é Salafrário, não sobra espaço para qualquer incerteza. Se a conclusão da moça estiver errada, ela simplesmente não vai se dar a chance de sabê-lo, pois, precipuamente (antes de mais nada) já tem a certeza de que um político individual – que de fato fosse honesto e bem intencionado – é político e, portanto, salafrário.

Se o leitor não discordou da moça, dada a situação do país ou qualquer outro motivo, troque a palavra “político” por “homem”, “judeu”, “japonês”, “negro” ou qualquer outro grupo que você desejar.

O fato é que agrupamos indivíduos sob rótulos dos quais, muitas vezes, eles sequer se julgam fazer parte. Agrupamos as loiras, ainda que sejam pintadas; os Asiáticos, ainda que japoneses e chineses sejam de culturas completamente diferentes; os filmes de Ficção Científica, embora existam diferentes gêneros dentro deste pseudo-gênero; e temos até a pachorra de inventar um grupo de “pessoas bonitas”.

Esta atitude é útil para catalogar grupos e fazer referência à coletividade, mas trata-se de uma ferramenta e, como tal, não deve ser usada para tarefas para as quais não foi designada. Seria como usar um martelo para apertar um parafuso.

Usar de generalizações como mecanismo para julgar indivíduos a partir de supostos comportamentos de grupos que, por vezes, nós criamos apenas para organizar nossos conceitos e preconceitos? – Isso não tem como ser justo!

Presumir um indivíduo desconhecido como tendo as características de outros indivíduos, baseando-se na própria experiência – ou vivência (escolha a palavra que quiser) – é julgar e condenar sem sequer dar uma oportunidade ao acusado.

E antes do leitor achar que não julga ninguém, não deve se esquecer que toda conclusão acerca do que uma pessoa deve ser, seguida de uma atitude baseada no que se presumiu, é um julgamento e, mais que isso, é uma condenação sem chance de apelação.

Ninguém disse que é fácil, mas sua cautela em não sofrer novamente uma decepção não é mais importante que tratar os outros de forma justa. O ônus da prova recai sempre sobre os ombros de quem julga alguém como desonesto ou presume alguém como culpado de algo. E se alguém já te magoou, não seria surpresa que isto tenha ocorrido porque tal pessoa foi mais cautelosa do que justa com você.

Portanto, um homem passar a achar que nenhuma mulher presta, porque uma ou outra – ou quinze – já o traiu, desqualifica estas meninas e não a vítima da traição. Muito menos uma nova mulher que entre em sua vida, porque sua formação como indivíduo não passa, necessariamente, pela aderência – ou aceitação – aos conceitos e ao caráter das meninas que o traíram.

Isso não vale só para homens e mulheres, mas vale também para brancos e negros; protestantes e católicos; ocidentais e orientais; comunistas e capitalistas; flamenguistas e vascaínos; americanos e brasileiros; e por aí vai!

A generalização é uma ferramenta poderosa e extremamente útil e – embora esteja aí para qualquer um usar – não é diferente de uma faca, que serve pra cortar um pãozinho ou pra matar uma pessoa.

Já se discutiu muito sobre isso em um monte de disciplinas. Existe até o conceito chamado de Generalização Desmedida, ou Falácia, que nada mais é que sustentar um argumento aparentemente lógico – o Paralogismo – não apresentando evidências e estabelecendo uma visão reducionista de uma questão, agrupando coisas e pessoas sem que haja qualquer valor lógico na proposição. Bons exemplos são: “Todo mundo sabe que Argentino tem mania de grandeza” ou “Não é novidade para ninguém que Brasileiro só gosta de carnaval, praia e futebol”.

Não podemos nos esquecer que, quando criamos estes grupos na cabeça – onde encaixamos os indivíduos – o fazemos interpretando a realidade ao nosso redor. Nem sempre, contudo, nossa interpretação dos fatos é correta, o que nos faz ver como evidência algo que não é mais que uma coincidência infeliz e incriminadora. Neste processo, nasce um grupo que sequer devia existir ou uma impressão errada do que este grupo de fato é.

Aprender a generalizar responsavelmente é aprender que generalizações, assim como as estatísticas, servem o propósito de definir grupos e não indivíduos. E que um indivíduo só pode ser julgado pelos seus próprios atos e jamais deve pagar pelos atos de outrem.

Ser um pouco mais Tolerante através da forma como nos referimos às coisas e pessoas é um pequeno passo e pode até parecer pequeno demais, mas o leitor deve se lembrar que, para sair de onde se está para chegar a um lugar distante, só empreendendo a jornada um passo de cada vez.

A Impossibilidade da Generalização

“A gravura se refere ao prazer em se tentar e a irritante impossibilidade em se criar uma conclusão.

Não há possibilidade de esgotar um assunto e há sempre o que se questionar e dimensões inacabadas.”

“Não estou certo, por exemplo, se Nietzsche acreditava de fato no que escrevia. Portanto, gostar ou desgostar dele é pouco apropriado. Ele fez uma proposição, na qual talvez ele mesmo não acreditasse. Nela viu possibilidade de expressão. Foi prazeroso promover suas idéias bizarras qual fosse uma mina de ouro escondida que engolfava toda a raça humana. Linda, lógica, sua teoria era digna de ser propalada, mesmo que incorreta.”

“Ao nos imiscuirmos no espaço para compreendê-lo, é capaz de encontrarmos um poço, que dê passagem para outra “esfera”. Extraímos algo deste poço com uma polia e com a ajuda de um balde. E o balde está furado. Não há nenhuma generalização possível. Ela é a invenção mais terrível da raça humana.”

“Toda generalização se opõe a frase: “Falar é mentir”. O que vemos na vida é apenas um fragmento, uma parte, algo invariavel e profundamente incompleto.”

“Toda filosofia, independente de sua similaridade, tem em suas fronteiras um colossal espaço. O homem, diminuto, tem de fugir de uma esfera, cruzar este espaço para só então alcançar a passagem para uma nova esfera - sempre limitado pela vida.”

“Estamos livres neste periodo no tempo, na larguesa desta estrada que nos resta. Mas generalizar a vida é pequeno demais.”

Sergey Poyarkov
Balance of Contradictions

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Out 21

Junto ao pórtico partido para o impossível, onde afrescos e relevos manifestavam o triunfo da sensatez sobre a estupidez, postava-se altivo e inabalável… sem soberba ou presunção

Para mim, parábolas são parábolas, venham elas de um livro cheio de tradição ou de um comercial de TV… e eis que, certa vez, Phlox, denobulano, médico e oficial da Enterprise NX-01 foi ao cinema com uma de suas colegas humanas a bordo. Uma vez que, ao invés de olhar para a tela ele olhava para as reações de todos a sua volta, a colega perguntou: “Não parece interessado no filme, Phlox. Não existem filmes em Denobula Triaxa?” – ao que ele respondeu: “Sim, temos algo semelhante… mas descobrimos que a vida real poderia ser muito mais interessante do que a ficção”.

Se assim pode vir a ser, para nós humanos, ou não eu não sei, entretanto me parece que faz um tempo que enveredamos por um caminho sem volta. Um caminho que passa pela resignificação do Homem para unidade produtiva, peça reposicionável e objeto dispensável individualmente, uma vez que facilmente substituível.

A sombra do medo de perder o superestimado e suposto conforto que se “tem” o homo laboris perde significado como um moribundo hemorrágico que sequer sabe verter, em baldes, o próprio sangue.

Semana passada um amigo – Mairus Maichrovicz – refletindo acerca da situação do mundo corporativo, me disse: “Nessa realidade trabalhamos como não queremos, torcendo para que as horas de cada dia passem o mais rápido possível para que cheguemos ao fim de semana e possamos gozar do conforto que o salário de cada mês nos propicia. Fazemos isso o mês inteiro, para que, ao final, ganhemos nosso salário que vai nos permitir querer que o próximo mês passe mais rápido… quando vemos já envelhecemos”.

Tentamos reencontrar a nós mesmos, enfim, em nossa vida pessoal, seja consumindo aquilo que achamos que precisamos – em nome do tal conforto – seja através de nossas relações com amigos ou com a pessoa amada.

Ah! E que conforto nos proporciona a pessoa amada! Nada mais reconfortante que fruir de uma apaixonada relação amorosa com a pessoa que se considera a certa e derradeira!

Particularmente, tive a sorte – diante da torturante realidade de ser obrigado a fazer meu trabalho de uma forma que não acredito certa – encontrar alguém especial no ambiente de trabalho.

Não sei quantos de vocês já tiveram a oportunidade de aderir a esta má prática deliciosa e que empresta um novo significado para tudo o que se faz no dia-a-dia.

Recomendar? Não me atribuam este papel! Opinião é que nem bunda – cada um tem a sua e, de repente, só sai |v|3rda.

Fato é, contudo, que o mundo é como é, pessoas não são ferramentas e, da mesma forma que o Homem é mais que uma unidade produtiva, a pessoa amada é mais que uma alavanca para alcançarmos a felicidade!

O breve texto de entrada ao topo deste pequeno ensaio descreve o dia-a-dia de um sujeito que viveu a 333 A.C., e que ensinava uma alternativa pouco convencional de se viver e de encarar a vida.

Zenon dissertava ao pé de um Pórtico erigido pelos atenienses após a vitória sobre os persas, que envergava imagens coloridas dos gregos derrotando os bárbaros.

O Pórtico – ou “stoa”, em grego – era o símbolo da vitória da sabedoria sobre a brutalidade, uma franca apologia à capacidade humana em lidar com seus problemas não somente com o ofertado pelos comportamentos óbvios e convenientes que são atribuídos à Natureza Humana, mas também com o ferramental desenvolvido a partir da reflexão, contemplação e sabedoria.

”O mundo é para quem nasce para o conquistar e não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão”, escreveu Pessoa, em Tabacaria.

E é aí que o Estoicismodoutrina fundada por Zenão de Cício (335-264a.C.), e desenvolvida por várias gerações de filósofos, que se caracteriza por uma ética em que a imperturbalidade, a estirpação das paixões e a aceitação resignada do destino, são as marcas fundamentais do homem sábio, o único apto a experimentar a verdadeira felicidade. de Zenon, do Pórtico, pode nos ajudar, uma vez que pregava-o como forma de manter a serenidade diante do revés e do triunfo.

Fugindo das noções artificiais e convenientes de necessidade, de conforto e de prazer, o Estoicismo defendia uma vida não conflitante com o entorno, simplicidade nas vestes, na alimentação e no estilo de vida.

Diante da adversidade “Abster-se e Resignar-se”.

Não se trata de não ligar para mais nada, apesar de Zenon ter sido profundamente influenciado por Crates, adepto da escola filosófica dos Cínicosrelativo a ou adepto da doutrina dos filósofos gregos Antístenes de Atenas (444-365 a.C) e Diógenes de Sinope (400-325 a.C.), que se caracteriza esp. pela oposição aos valores sociais e culturais em vigor, com base na convicção de que não é possível conciliar leis e convenções estabelecidas com a vida natural autêntica e virtuosa..

Trata-se de ser capaz de encarar os fatos sem otimismo e sem pessimismo, abstendo-se de ser tendencioso.

Zenon era filho de pais ricos e, a certa altura, perdeu todas suas posses em um naufrágio. Ao tomar conhecimento do ocorrido serenamente disse: “O destino queria que eu filosofasse mais desembaraçadamente”.

Não é que nada tenha importância ou significado… é que se, por desventura, a vida lhe atira limões, faça uma limonada!

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Set 12

“Ai, que texto longo!”, “Não entendi nada!”, “Você gosta de escrever, né?”, “Por que você escreve esquisito assim?”, “Dava pra cortar isso aí pela metade!”, “Por que você não troca ‘acerca’ por ‘sobre’?”, “Seu texto é um auto-elogio só!”, “Eu só gosto de ver as figuras no seu Blog”… é o que eu escuto ou leio semanalmente sobre o conteúdo e a forma do que eu escrevo. Adivinhem – ninguém está errado! – mas discordo dos comentários sob um ou outro aspecto.

“Brutal”, foi a primeira palavra proferida por George Orwell, quando bebê, ou assim nos fez acreditar sua mãe, que eternizou a lenda.

Orwell escreveu “1984”, livro que descreve uma sociedade totalitária que anula o indivíduo, valoriza a coletividade em nome da produção e, sobretudo, em que os fins justificam os meios e a mentira é uma preciosa ferramenta do Estado.

Em seu livro, e mesmo no filme de mesmo nome, Orwell sugere, de forma um tanto velada, que a destruição da língua tem papel importante na sedimentação de um Estado policial totalitário, um governo de exceção.

Na obra, contrações lingüísticas, fusões de palavras, inversões de conceitos, são lugar comum e lindamente costurados com a falta de significado e a distorção do sentido íntimo de tudo o que é dito.

A primeira palavra de Orwell bem poderia ser usada para descrever como desconstruímos nossa história e identidade ao destruirmos a língua… É brutal!

Há quem não se preocupe tanto com isso e ache até muito bom que a língua esteja convergindo para algo mais conciso e eficiente, mais objetivo e pragmático. Sob certos aspectos é, de fato, muito interessante, produtivo e tudo mais, mas é também um empobrecimento da cultura e de nós mesmos.

Desde a revolução industrial, a sociedade vem descrevendo uma curva ascendente em direção à uma maior produtividade, à uma maior eficiência, mesmo que em detrimento da qualidade e da durabilidade. A não sustentabilidade dos meios de produção e dos produtos em si mesmos nem se cogita na lista de prioridades corporativas.

Para alcançar taxas de produção tão elevadas e para garantir a lucratividade torna-se necessário o entendimento do processo produtivo em termos não de homem/hora, mas de homem/centésimo-de-segundo. É preciso criar metodologias cada vez mais elaboradas para alcançar as taxas alvo a despeito do Homem, embora seja ele quem efetivamente trabalha. Entende-se o Homem, nesta realidade, como uma peça em uma máquina e se esquece que é ele um Ser Humano.

Mesmo que este pareça um discurso datado, fica bastante claro que o discurso é atual quando se percebe que é lugar comum uma fábrica sair de seu país de origem para operar com mão de obra mais barata em países em desenvolvimento, deixando inúmeras famílias sem fonte de renda.

Este “industrialismo” teve profundo impacto na forma que o Homem vê o mundo e em sua forma de pensar e agir, viciando-o em conceitos que só parecem verdadeiros graças à realidade na qual foi imerso.

Na Idade Média, a pintura não conhecia a perspectiva, ou melhor, manifestava nas telas inúmeras perspectivas… essencialmente estavam presentes diversos pontos de fuga – conceito que viria posteriormente.

Da geometria projetiva e da Arquitetura veio o conceito de ponto de fuga, que dá ao espectador a impressão de estar dentro do quadro, respeitando a perspectiva qual se estivesse vendo os elementos do quadro como se existissem em um espaço tridimensional.

Por outro lado, o advento do ponto de fuga não mais dá uma multiplicidade de visões, de perspectivas, viciando o espectador no próprio ponto de vista e coincidindo com as tendências mais individualistas descortinadas pelo progresso.

O ponto de fuga pode ser lido como a asserção da própria perspectiva, o encontro consigo mesmo e até a valorização do indivíduo, entretanto afasta o indivíduo da diversidade de visões, da busca de visões estranhas à sua e mesmo a aversão a tudo o que é discordante com a própria opinião.

Em um mundo orientado à produção, o trabalho precisa ser valorizado e moderadamente recompensado, os cidadãos têm de estar imbuídos de valores que o incentivem a trabalhar e deve-se desqualificar quaisquer questionamentos em sentido contrário ou que entrem em conflito com os interesses “produtivos”.

Estando a eficiência a frente da eficácia e da efetividade, perde-se a necessidade da qualidade e da sensatez, focalizando os esforços sociais no sentido de um Objetivismo e Pragmatismo desmedidos que só permitem a análise da realidade através da conclusão de objetivos e só permitem o entendimento do movimento tendo algo previamente eleito como objetivo.

Invariavelmente, em vista de ter-se descartado a qualidade e a sensatez, há que se acobertar tais impropriedades de algum modo. Isto pode ser feito através da criação de órgãos destinados a endossar o cumprimento de boas práticas, elencadas em metodologias que, se seguidas, não permitirão – por sua própria natureza – atingir a tão preciosa lucratividade.

Para garantir a aderência a esse padrão de qualidade fictício sem provocar quedas de produção, os órgãos exigem que a corporação tenha um percentual de seu contingente treinado nesta metodologia e assumem que as tais boas práticas, dado o treinamento do pessoal, sejam levadas à cabo. Eis o conceito de certificação.

O quadro belíssimo leva então a cobertura essencial do discurso vazio, empreendido por profissionais de Administração, Vendas e mesmo Cientistas Políticos, que destilam sofismas, palavras da moda e frases feitas, tão emblemáticas quanto incoerentes, que defendem ora um ora outro ponto de vista, quase sempre conflitantes.

A imersão opera milagres…

Joseph Goebbels, Ministro da Propaganda no 3º Reich, eternizou aforismos importantíssimos no entendimento da anatomia de um Estado totalitário, afirmando que “quanto maior a mentira, maior a credulidade”, que esta forma de governo “não busca a verdade, mas o efeito por ela produzido” e que “o objetivo do sistema é que até a desobediência se torne uma forma de obediência”.

A busca de um ponto de fuga único e orientado ao espectador é o ponto pelo qual o espectador foge da realidade, confiando demais em sua própria visão de mundo para tolerar ou considerar os demais pontos de vista, entendendo como Natureza Humana a condição de não questionar nada e sentindo-se afiançado na posição de acreditar-se fundamentalmente certo.

Hoje, graças aos caminhos que resolvemos percorrer, temos um dicionário rico em verbetes com dez, vinte, cinqüenta acepções e, entretanto, cada indivíduo escolhe fazer uma média das “n” acepções ali descritas e concluir uma única acepção para conceitos complexos como “Questionar”, “Moral”, “Ética”, “Objetivo”, “Abstração”.

Os protocolos de comunicação ruem diante desta brutalidade ideológica de relativização dos significados, não permitindo que duas pessoas se compreendam pois elas não mais conseguem pensar em dez, vinte, cinqüenta acepções para cada uma das palavras que adotam em seu vernáculo, ao invés disso sustentando pontos de vista que se fundamentam no significado que escolheram para as palavras que usam.

A generalização e relativização da língua e a re-significação auto-indulgente de conceitos, são reflexos de nosso desrespeito por qualquer outro ponto de vista e pelo descaso quanto ao sentido íntimo das coisas.

A noção de que “tudo é relativo” é uma generalização tosca, mais uma média “estatística” intuitiva que se tira sem base alguma e meramente para afiançarmos as certezas equivocadas que gostamos de ter.

“Palavras difíceis” são corriqueiramente descartadas, com a impaciência destas pessoas preguiçosas nas quais nos tornamos, e é isso que vai nortear a confecção de textos jornalísticos e obras literárias, levando a língua e a cultura em uma espiral descendente em direção à mediocridade à qual só a média e o relativismo exacerbado tem condições de nos levar.

Destituídos de significado não só os discursos, mas cada um de nós se torna vazio e sem substância. Não há mais protocolo de comunicação possível se decidimos que cada um pode reinventar a língua a seu bel prazer.

Logomaquia é o nome que se dá para discussões geradas por diferentes interpretações acerca do sentido de uma palavra; o emprego de termos não definidos em um discurso ou argumentação; e a querela em torno de coisas insignificantes.

Em que contexto esta palavra se encaixa neste texto cada leitor escolhe, dependendo de suas interpretações do que leram e de forma bastante independente da minha intenção como autor. O que jamais deve ser esquecido é que há mais de uma acepção. Não abra mão dos múltiplos significados das coisas!

Vale refletir acerca da forma que nos relacionamos com nosso entorno e, como escreveu David Reisman: “Faça um apanhado das frases com as quais concorda e questione-as!”

Se uma casca do que um dia fomos é só o que nos resta ser no futuro, só vai valer a pena abrirmos a boca mesmo é para bocejar…

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Jul 26

“Eu nasci assim, eu cresci assim e sou mesmo assim… vou ser sempre assim!”, é dos mantras mais cotidianamente entoados nos dias de hoje - de uma forma ou de outra - mas qual a moral da história?

A moral da história? Ninguém mais sabe!

Perdeu-se a noção do que é Moral, Moralidade, Moralismo e, sobretudo, do que e Questionamento Moral. E isto vem ocorrendo há muito tempo.

Não é difícil sustentar, inclusive, que estas noções, em nenhum momento, foram lá tão conhecidas. Talvez, entre o século XVIII e XIX, com sorte, a elite cultural e econômica da sociedade ocidental - e alguns acadêmicos da área de Ciências Humanas - fossem os únicos que, de fato, tiveram tais conceitos como parte de sua vida.

Apesar da Ética ser o estudo sistemático da Moralidade, entende-se ética, em círculos leigos, como um conceito vago que acaba sendo não mais que um mero sinônimo de “conjunto de valores”.

É pouco.

Mas começo o texto falando do que batizo de “Síndrome de Gabriela”, não é?

Em conversas mais sérias, normalmente daquelas em que falamos “do mundo e das coisas”, é muito comum surgir aquele comentário que esbarra no limite que, cada um de nós, estabelece para o Ser: “Mas esta é a natureza humana!”.

Escrevi sobre isso em “A Tal da Natureza Humana”, há algum tempo, e tentava demonstrar que nos satisfazemos com o senso que fazemos do Homem e, levianamente, nos bastamos neste modelo intuído da realidade.

No que concerne a relacionamentos e comportamento, me parece, existe outro destes aforismos banais que, deterministicamente, acaba por pontuar tanto um fim de discussão quanto a manha de uma criança chata que diz “não quero”!

Quantas vezes já não ouvimos, em discussões e situações tensas, respostas como: “Eu sou assim!”, como se isto fosse suficiente e determinante para estabelecer um argumento irrefutável, independente de quaisquer julgamentos ou conjuntos de princípios.

“Sei que soa incoerente, mas eu sou assim”; “Sei que é injusto, mas sou assim”; “Sei que não tenho traquejo social, mas sou assim”; “Sei que isto não é certo, mas eu sou assim”; “Eu sinto muito, mas eu sou assim”; “Ninguém me muda, você pode não gostar, mas eu sou assim!”.

Estas frases são uma só, são imobilistas e auto-destrutivas… são uma forma de morte de alguém que é esmagado pela sua suposta incapacidade e pela preguiça em lutar contra suas certezas equivocadas e convenientes.

A crescente utilização deste aforismo, entendo eu, tem suas raízes evidenciadas em uma parábola conhecida como “O Insensato”, onde Nietzsche sustenta algo bastante relevante para o entendimento dos porquês de tanto sermos indulgentes com nossas faltas e tentarmos justificá-las.

O Insensato
Conforme escrito em “A Gaia Ciência”

“Nunca ouviram falar do louco que, em pleno dia, acendeu uma lanterna, correu ao mercado e pôs-se a gritar sem parar:

- ‘Procuro Deus! Procuro Deus!’.

Como lá se encontravam muitos que em Deus não acreditavam, provocou muitas risadas.

– ‘Será que ele se perdeu?’ – disse alguém – ‘Perdeu-se tal qual uma criança?’ – falou outro – ‘Ou será que está bem escondido? Tem medo de nós? Será que foi embora? Ou emigrou?’ – gritavam e riam em grande algazarra.

O louco pulou no meio deles e transpassou-os com o olhar:

– ‘Para onde foi Deus?’ – bradou – ‘Vou dizer-lhes para onde foi! Nós o matamos: vocês e eu! Nós todos somos seus assassinos! Mas como fizemos isso? Como pudemos esvaziar o mar bebendo-o até a última gota? Quem nos deu a esponja para apagar o horizonte? Que fizemos quando desprendemos a corrente que ligava a Terra ao Sol? Para onde vai agora? Para onde vamos nós? […]’

Após pronunciar estas palavras, o insensato calou-se e dirigiu novamente o olhar a seus ouvintes; também eles se calavam como ele e o fitavam com espanto. Finalmente, atirou a lanterna ao chão de tal modo que se espatifou, apagando-se.

– ‘Venho muito cedo’ – prosseguiu –, ‘meu tempo ainda não chegou. Esse evento enorme está a caminho, aproxima-se e não chegou ainda aos ouvidos dos homens. É preciso tempo para o relâmpago e o raio, é preciso tempo para a luz dos astros, é preciso tempo para as ações, mesmo depois de concluídas, para serem vistas e entendidas.

Sobretudo fora do meio acadêmico, a compreensão da máxima “Deus está morto” é bastante limitada. Muito mais que acerca de um Deus criador, a parábola de Nietzsche falava de tudo aquilo que é sutil demais para ser quantificado, qualificado e facilmente referenciado.

Em sua profecia acerca do que estaria por vir – o modus vivendi dos dias de hoje – o filósofo sustentava repetidamente que o Homem, após dominar tantos campos do conhecimento e da técnica, começou a não ver necessidade objetiva na existência não só de Deus, mas de qualquer outra coisa que não fosse objetiva e imediatamente identificável.

O movimento, segundo ele, provocaria uma cataclísmica degradação dos valores aceitos em função de novos valores. Tais valores seriam largos o suficiente para tornar a própria noção de valores relativa demais para ser pensada ou entendida, abstrata demais para ser tangenciada pelo pensamento, subjetiva demais para que qualquer pessoa objetiva gaste tempo com ela.

Com isso, os sentimentos, as virtudes, a ética, tudo que não tem uma manifestação intuitiva, objetiva e facilmente compreendida, passa a ser secundário, sem valor prático e, o que é pior, insignificante.

E, uma vez que o Homem vê como insignificante o subjetivo ele abre mão do significado, posto que há muito mais riqueza de significado na subjetividade do que na objetividade – esta última um devir de Todo, uma redução medíocre do Real.

Em um mundo com cada vez menos produção de subjetividade, a desqualificação do subjetivo é implícita, o que é belo vira piegas, o que é atencioso vira meloso e o perdão vira fraqueza. A poesia morre e é vista como inocente e boba, a conotação deixa de existir e sobra apenas uma casca do que antes chamávamos conteúdo; a arte vira produto – e produto é a maior diversão.

A obsessão pelo eficiente, pelo direto e pelo pragmático, não deixa qualquer chance para o refletido, o complexo e o elaborado. E, para ilustrar de forma clara: em uma realidade como esta, os livros são julgados pela capa, pois ler dá muito trabalho.

As pessoas são julgadas por tudo de mais óbvio que elas detém, com ou sem mérito de tê-las conquistado, pois a falta de conteúdo se alastra das coisas que fazemos para as pessoas que somos.

Julgar-se distante do problema – descontextualizado desta realidade, isento dos preconceitos, dos princípios da ausência de princípios, do relativismo moral, do cinismo exacerbado, do sarcasmo incondicional e de todos os demais sintomas do idealista frustrado – é não entender-se doente… é estar já desenganado.

O cânone Protagoriano: “O homem é a única medida de si mesmo”, usado fora de contexto e ignorando as ressalvas Socráticas e Platônicas, é usado como só mais uma desculpa. Uma desculpa que torna apenas o Eu importante, retro-alimentando o individualismo crescente ao qual todos sabemos que aderimos cada vez mais.

Sendo importante somente o Eu, este Eu alquebrado e vazio de conteúdo, no qual nos transformamos, tornamo-nos cada vez menos sensíveis, cada vez mais intolerantes, cada vez mais ineptos em termos compaixão e amor – passamos mesmo a ser incapazes de entender qualquer modelo, que não o nosso, como válido. O único esforço que nos resta é tentar concordar com nossas próprias opiniões.

Numa jornada com arreios, sem olhar para os lados e só sendo capazes de olhar um simulacro de objetivo – este para além do horizonte – nem aproveitamos a jornada nem, apesar de queremos crer, temos a certeza de que o destino desejado será alcançado.

Não há mais sentido em nada, a não no que é destituído de conteúdo; não há mais conteúdo em nada, nem em nós mesmos; não há mais modelo satisfatório que não o modelo do próprio indivíduo; e, definitivamente, não há mais sentido na vida alheia, posto que não é a nossa e que, portanto, não pode ser tolerada como exemplo.

O Homem ficou do tamanho que ele entende, pois se acostumou a não ter paciência para entender mais do que o nada. Só a diversão é tolerada, pois ela é um mecanismo diversionista – que nos tira da direção – que nos aliena da realidade cinza da prisão que nós mesmos construímos.

”EU SOU ASSIM, nada vai me mudar. Sou velho demais para mudar; empedernido demais para mudar; não estou disposto a mudar; e não quero mudar. Posso parecer uma criança chata, mas eu sou assim!”

O maior triunfo do Homem foi alcançar o que definiu como perfeição, resolvendo esquecer o que está além da ficção na qual quis acreditar; foi matar a condição de sonhar em ser melhor do que é, posto que jamais foi melhor do que agora acredita que é; foi destruir completamente todos os caminhos para fora da cidade do Eu; foi matar tudo que está além do que pode perceber, que pode sentir; foi matar Deus.

Foi matar não o Deus denotativo, mas o Deus conotativo, uma metáfora que se transubstancia para significar tudo aquilo que existe para além do que o mundo dos sentidos nos permite identificar. É a isso que matamos.

E ao matá-lo, o Homem não tem nada maior a almejar, nada que lhe pareça perfeito e que lhe possa servir de modelo… o Homem está satisfeito na sua condição de carcaça.

Acabou a coragem para trilhar novos caminhos, a inteligência para compreender o que se percebe e a paixão para ser-se mais do que se é.

Ao matar “Deus”, o Homem mata a si mesmo.

E aí não mais importa que se diga “sou assim”… neste altura, simplesmente não se é mais nada!

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