Sinfonia da Ciência

Fevereiro 27, 2010  |  Ciência, Como vejo o mundo..., Filosofia  |  No Comments

A Poesia da Realidade

Projeto musical de John Boswell, Sinfonia da Ciência pode até ser de gosto musical duvidoso, mas tem mérito experimental desde sua concepção.

O idealizador atribui a Sagan, Ann Druyan e Steve Soter – que produziram a série Cosmos, um marco na divulgação científica sem precedentes e referência até os dias de hoje – a sua inspiração para o desenvolvimento do trabalho.

Trata-se de um projeto com um sem número de fãs, que fornecem apoio financeiro e colaborações do mundo todo.

Outros vídeos, como o aqui exibido, podem ser vistos na área de vídeos do website.

Particularmente tenho Carl Sagan como um grande herói e a série Cosmos foi um dos programas de TV mais marcantes de minha infância. Eu deixava de “sair pra brincar” para ver o próximo episódio de domingo e, ao perder um, tive de esperar até o Vídeo Cassete Recorder (VCR) ser lançado para então esperar até sair em VHS.

Gary Tonge: O Grande Universo

Quando finalmente saiu em VHS só existia para vender em São Paulo e acabei não conseguindo comprar antes do estoque acabar. Tive então de esperar até o DVD Player ser lançado e depois até os DVDs serem disponibilizados pela Abril para poder finalmente adquirí-los.

É, de fato, uma obra prima e até sério demais e sensacionalista de menos para o mundo de hoje.

Mas… quanto a Sinfonia da Ciência… achei o projeto panfletário e reducionista.

Sinto muito dizer isso.

Sou um grande entusiasta do Método Científico mas, tendo estudado o quanto pude de Filosofia e lido o quanto pude sobre as críticas ao “jeito de fazer” da Comunidade Científica, entendo que estamos trilhando um caminho perigoso, onde estamos passando a abraçar mais uma panacéia: a Ciência.

A Ciência se debruça sobre um conjunto por demais limitado de objetos de estudo para ganhar as dimensões que vem ganhando.

Acho um barato o vídeo. Uma brasa mesmo, mora? Mas a mensagem passada repetida insistentemente simplesmente não fecha.

O pragmatismo mecaniscista e o objetivismo reducionista da Ciência são ferramentas magníficas para lidar com problemas específicos, que lidam com o funcionamento das partes que compõe o Universo, o Ser Humano e muito daquilo pelo que o Ser Humano se interessa. É, contudo, uma injustiça muito grande atribuir à Ciência a responsabilidade de ser tudo o que se vem atribuindo que ela deva ser… e ela não tem como entregar o que dela se espera.

Raphael: A Escola de Atenas

A Ciência é só mais uma Escola Filosófica. Profundamente bem sucedida, é verdade, mas não é mais que uma Escola Filosófica. A Filosofia não é uma Ciência Humana. A Ciência é que é uma Filosofia Exata. De alguma forma, contudo – talvez dados os resultados práticos obtidos, que são facilmente quantificáveis e mensuráveis – a Ciência perverteu a noção de que só existe graças a uma outra forma de produzir e refletir sobre conhecimento, a Filosofia, que a ela deu origem.

O escopo da Filosofia é amplo, o da Ciência é estreito e deixa de lado qualquer compromisso Moral, Ético, Espiritual, Metafísico ou Subjetivo, o que é – isso falando por baixo – uma deficiência grande demais para que possamos abraçar a disciplina em uma espécie de Cientocracia não declarada, ou um Cientismo (como batizou Giovanni Reale).

A Ciência é uma ferramenta. A Filosofia é uma forja de ferramentas. E fazemos ferramentas com objetivos. Os objetivos da Ciência são claros. Há algum tempo eu cunhei a frase: “Para quem só tem martelo todo problema é prego”, e creio que vale a pena o leitor refletir bem a respeito disso.

A Ciência, o amor pela Ciência e a confiança na Ciência não devem ser cegos e não se deve esperar dela o potencial ou a autoridade para, por exemplo, julgar por A mais B se uma doutrina é a raiz de todo mal ou não. Isso é trabalho para outras Escolas Filosóficas que, como a Ciência, ganharam contorno até se tornarem ferramentas importantes para fazer aquilo para o que são insubstituíveis. E ainda assim, elas vão poder estar erradas em suas conclusões.

Acreditar cegamente na Ciência, na Comunidade Científica ou no Método Científico é não ter pensamento crítico, é não ter lido nada do que foi escrito contra o Método em 2500 anos de História e é fomentar uma nova forma de preconceito ideológico e ignorância, e isso não tem como terminar bem.

Não tenho dúvidas das boas intenções de John Boswell e muito menos do trabalho e competência dos membros da Comunidade Científica, mas enquanto se engrossam as fileiras dos Devotos da Ciência, gente tão estúpida a respeito da Ciência e ao Método Científico quanto o seriam para qualquer outra Doutrina Religiosa ou Ceita, perdemos de vista os motivos da importância da divulgação científica e do cultivo da mente científica no Homem Comum.

Rembrandt: O Filósofo em Meditação

Se você discorda de mim, acho ótimo! Comente por aqui civilizadamente e com bons argumentos e fatos que corroborem com sua forma de ver o mundo. A diversidade de opiniões é o motor da Mudança em nossa Civilização. No mais tente refletir sobre a minha indisposição para com o jeito que as coisas são… eu garanto que vou tentar refletir sobre os comentários que você deixar aqui.

Eu? Eu só digo isso porque amo a Filosofia… por que sou um apaixonado pela Ciência… e, no entanto, escolho dar mais importância ao futuro do Homem neste Universo, um Universo que não é só composto de suas partes… um Universo cujo Todo é, no meu entender, maior que a soma de todas elas.

Hitler não foi um Monstro

Janeiro 8, 2010  |  Como vejo o mundo..., Conspirações  |  268 Comments

…e seria lamentável se acreditássemos que foi.

Pode parecer chocante a afirmação, contudo há um motivo muito bom para que não acreditemos que Hitler era um monstro, uma aberração ou uma anomalia: não podemos deixar que isso aconteça novamente.

Acreditar que um tirano seja algo diferente de nós mesmos é desconhecer a História e tentar achar uma explicação simples para entender algo sem se dar ao trabalho de estudar o indivíduo e sua ideologia.

Hitler não chegou onde chegou devido a ser uma criatura maléfica, mas justamente através do constante discurso carismático e equivocado que oferecia explicações simples, auto-indulgentes e que apelavam para o orgulho daqueles que os conheciam e, mais tarde, de toda a população alemã.

As crenças de Hitler estavam profundamente enraizadas nas ideologias propostas por autores conhecidos e conceituados na época – em alguns casos mal interpretados – que professavam a importância do ideal nacionalista, do patriotismo, da legítima possibilidade de a miscigenação ocasionar problemas genéticos, da idéia de que a Igreja Católica minava a cultura germânica, da noção de que os outras raças não eram confiáveis por natureza e de que tinham agendas prejudiciais para o povo alemão e a crença de que a herança genética alemã vinha diretamente dos fundadores de Atlântida.

Este é o estrago que ideologias podem fazer. Ao tecer uma colcha de retalhos e fazer com que cada pedaço cumpra uma função, o padrão emergente pode se fazer parecer coerente e atraente, sobretudo se este adula ao mesmo tempo que culpabiliza terceiros de forma simplista pelos problemas complexos sobre os quais ninguém deseja pensar longamente depois de um dia estafante de trabalho.

Cada elemento utilizado pelo regime do Reich não foi mais que uma ferramenta e ferramentas podem ser usadas de muitas maneiras. Hitler, a todo momento alardeava o Socialismo, o Patriotismo e a Ordem como sendo elementos importantes para o povo alemão, e não era mentira! Mas é possível contar uma grande mentira repetindo um conjunto interminável de verdades.

Dificilmente uma população é capaz de perceber os absurdos sócio-político-culturais que estão sendo empreendidos bem diante de seus narizes, sejam eles sacrifícios humanos, a inquisição, a escravidão, o assassínio, o desfiguramento, a plástica ou qualquer prática que transforme um grupo em parte do problema e outro em parte da solução – digamos – como separar pessoas gordas de pessoas magras, fumantes de não fumantes, comedores de carne de vegetarianos ou “pessoas feias” de “pessoas bonitas”.

O próprio leitor, ao ler o parágrafo acima, pode ter achado que são maus exemplos, no entanto, acreditem, todos eles são exemplos válidos e legítimos… e não só porque eu quero que sejam!

Acontece que é nas questões polêmicas, de um modo geral, que reside a monstruosidade e não no Partido Alemão Social-Nacionalista dos Trabalhadores (Nationalist Socialist German Workers Party – NAZY)

Ao esquecermos que dilemas morais vão existir sempre e ao escolhermos um dos lados como sendo o correto, se temos em nossas mãos o poder, acabamos por se injustos com toda uma corrente ideológica e, arbitrariamente, punimos a classe desfavorecida, por vezes fazendo-a mudar de vida (o que já é questionável moralmente) ou, por vezes, gerando uma tensão social desnecessária e que, caso continuemos o processo, vamos acabar reprimindo por força do poder executivo.

Fumar faz mal ao fumante, não se tem total certeza se faz mal ao não fumante – embora os incomode – no entanto, cada vez mais, criamos dificuldades para que o fumante fume em público o produto que nós (o Estado) o incentivamos a comprar por não proibirmos sua venda e por recebermos os impostos sobre sua comercialização.

Pior ainda, hoje, se o fumante fuma em um estabelecimento comercial, com o fumante nada ocorre, mas o dono deste estabelecimento é culpabilizado, não tendo ele cometido qualquer delito, uma vez que só se deveria julgar os indivíduos pelos seus atos. Tensão social desnecessária.

Proibir o cigarro? Isso poderia criar um mercado negro… tráfico…

É um cobertor curto pelo simples motivo que é um dilema. Dilemas serão sempre dilemas. Pode-se sim assumir uma política forte de combate ao cigarro, é claro, contudo, é curioso não havia tantas reclamações quanto ao consumo de cigarros há 15-20 anos atrás. É curioso que pais que fumaram por 20 anos agora digam para seus filhos que não fumem e que se argumente que cigarros dão câncer, quando todos sabiam muito bem que cigarros davam câncer desde a época em que cigarros eram “moda”.

Pois bem… Não fumar, agora, é moda, da mesma forma que fumar já foi moda. A pressão social para fumar, no passado, foi substituída pela pressão social para não-fumar.

E o que tudo isto tem a ver com Hitler e com sua condição de ser ou não um monstro? Tudo.

São as pequenas coisas, as ideologias coerentes, os exageros aceitáveis, que vão tolhendo nossas liberdades civis e transformando o mundo em algo que não se deseja.

“O Cigarro é uma epidemia e faz mal… temos que combatê-lo”, é uma frase tão boa quanto “a obesidade é uma epidemia e faz mal… temos que combatê-la”, ou, “o consumo de carne é uma epidemia e faz mal… temos que combatê-lo”. Você vai achar argumentos ótimos defendendo ou atacando estas frases. O fato é que arbitrar sobre questões éticas e morais não é simples e é muito triste que, cada vez mais, as bandeiras levantadas a favor ou contra este ou aquele assunto, não tenham qualquer relação com o assunto em si.

O sentido íntimo do combate ao cigarro, a CPMF, às armas de fogo ou a maconha tem muito menos relação com os problemas ou soluções oferecidos por estas questões do que garantir a dado político que uma população o entenda como sendo “o sujeito que tentou resolver o problema”, problema este que, muitas vezes, sequer é um problema.

As grandes questões sociais saíram das mãos do povo há muito tempo – se é que já estiveram em suas mãos – por falta de qualificação. Não fomos ensinados a pensar, não fomos ensinados a julgar, nos privaram de uma educação clássica e todo nosso construto cognitivo usado para julgarmos nossa realidade se baseia em preconceitos, propaganda e programas de televisão.

Não conseguimos mais culpabilizar apenas o culpado e, muitas vezes, culpabilizamos quem é inocente; cada vez mais escuta-se por aí que “a ditadura é a solução”, independente de tantos anos de história que nos mostraram o contrário; e um individualismo crescente se mistura a um medo crescente da violência e a uma sensação de ser injustiçado por um Estado que parece não ter mais jeito.

Estamos no ponto certo… um pequeno empurrão de alguém um pouco mais ambicioso, com planos de apelar para nosso orgulho e para nosso desejo de não termos culpa de nada e acabaremos no mesmo lugar que todas as populações equivocadas e comandadas por tiranos já estiveram.

Valorizamos hoje o combate a Repressão, a época do Regime Militar, mas menos de 10% da população brasileira era contra o regime. Não foi diferente no passado, não é diferente hoje e não será diferente amanhã…

…no meu entender, os monstros somos todos nós!

Continuação do vídeo no YouTube

Não tenho nada a dizer…

Maio 31, 2008  |  Como vejo o mundo..., Internet  |  No Comments

(via Colmeia.tv)

Use Filtro Estelar

Maio 25, 2007  |  Como vejo o mundo...  |  1 Comment

Eu já gostava da versão original em inglês, mas esta tem tudo a ver comigo. Quem me conhece vai entender. Quem não conhece, ria à vontade da “remasterização” =)

O original de “Star Wars Sun Screen”, no YouTube.

A versão original de “Sun Screen”, no YouTube.

A versão original de “Sun Screen”, no YouTube

A versão catastrófica… “Filtro Solar”, com Pedro Bial, no YouTube

Enquanto isso, no planeta Terra…

Fevereiro 13, 2007  |  Como vejo o mundo...  |  No Comments

Generalizações

Outubro 6, 2006  |  Como vejo o mundo...  |  3 Comments

“Tenho quase absoluta certeza de que, de repente, é possível que seja provável que minha vivência justifique, sem sombra de dúvida, que talvez eu possa presumir acertadamente o comportamento futuro de um indivíduo, baseado na observação do comportamento pregresso da coletividade.”

É difícil ser menos conclusivo e mais incoerente. Mas nós mesmos declaramos algo muito parecido cada vez que, irresponsavelmente, usamos de generalismos para julgar uma pessoa ou um grupo.

E o que é o generalizar? Há mais de um sentido, mas o que mais se adeqüa aqui é: “Afirmar, de forma infundada ou não, que algo é verdadeiro em grande parte de situações, ou para a maioria das pessoas”.

Fazemos isso o tempo todo, seja ao dizer que “só um por cento das pessoas lê sobre Filosofia”, seja ao afirmar que “só dez por cento dos telespectadores vê a TV Educativa” ou que “é muito pouco provável que não exista vida fora da Terra”. Todas estas pressuposições se baseiam em estatísticas intuitivas, sem bases, puramente ancoradas no preconceito e descaradamente fundamentadas em uma experiência limitada da realidade – ainda que sejam verdadeiras!

Será que é interessante nos acostumarmos a pensar assim? Será que é responsável e justo? Será que é bom? Ou será que é reducionista, superficial e tolo?

Acostumarmos-nos a ser levianos em análises simples – por nos parecerem elas menos importantes – nos condiciona a fazer vista grossa em julgamentos mais relevantes. Um bom exemplo são afirmações como “mulher ao volante é um perigo constante”, ou mesmo ditos populares como, “pau que nasce torto morre torto”.

Antes de qualquer coisa, para os defensores dos ditos populares como “a voz do povo é a voz de Deus”, só tenho a dizer que não é lá muito coerente que se afirme que “mais vale um pássaro na mão que dois voando” quando também se diz que “quem não arrisca não petisca”.

Os generalismos estão em toda parte – sem querer ser generalista – mas mesmo que eu esteja errado quanto a sua fartura em aparecer por aí, veja só o perigo que é generalizar:

“Todo político é salafrário!” – diz ela com desprezo para o recém conhecido.

Ele, tentando não se sentir ofendido – “Ahn… Assim… Literalmente? Todo mesmo?”

“Claro! Todo político! Não tem um que preste.” – Afirma categórica.

Um tanto sem graça ele pergunta – “Mas como você sabe, se não conhece todos?”

“Eu conheci o número suficiente de políticos para saber!” – Postula.

Não sei quanto desse diálogo o leitor teve a oportunidade de presenciar, mas não é difícil imaginar os problemas dele advindos.

Em tendo concluído que Com Certeza Todo Político é Salafrário, não sobra espaço para qualquer incerteza. Se a conclusão da moça estiver errada, ela simplesmente não vai se dar a chance de sabê-lo, pois, precipuamente (antes de mais nada) já tem a certeza de que um político individual – que de fato fosse honesto e bem intencionado – é político e, portanto, salafrário.

Se o leitor não discordou da moça, dada a situação do país ou qualquer outro motivo, troque a palavra “político” por “homem”, “judeu”, “japonês”, “negro” ou qualquer outro grupo que você desejar.

O fato é que agrupamos indivíduos sob rótulos dos quais, muitas vezes, eles sequer se julgam fazer parte. Agrupamos as loiras, ainda que sejam pintadas; os Asiáticos, ainda que japoneses e chineses sejam de culturas completamente diferentes; os filmes de Ficção Científica, embora existam diferentes gêneros dentro deste pseudo-gênero; e temos até a pachorra de inventar um grupo de “pessoas bonitas”.

Esta atitude é útil para catalogar grupos e fazer referência à coletividade, mas trata-se de uma ferramenta e, como tal, não deve ser usada para tarefas para as quais não foi designada. Seria como usar um martelo para apertar um parafuso.

Usar de generalizações como mecanismo para julgar indivíduos a partir de supostos comportamentos de grupos que, por vezes, nós criamos apenas para organizar nossos conceitos e preconceitos? – Isso não tem como ser justo!

Presumir um indivíduo desconhecido como tendo as características de outros indivíduos, baseando-se na própria experiência – ou vivência (escolha a palavra que quiser) – é julgar e condenar sem sequer dar uma oportunidade ao acusado.

E antes do leitor achar que não julga ninguém, não deve se esquecer que toda conclusão acerca do que uma pessoa deve ser, seguida de uma atitude baseada no que se presumiu, é um julgamento e, mais que isso, é uma condenação sem chance de apelação.

Ninguém disse que é fácil, mas sua cautela em não sofrer novamente uma decepção não é mais importante que tratar os outros de forma justa. O ônus da prova recai sempre sobre os ombros de quem julga alguém como desonesto ou presume alguém como culpado de algo. E se alguém já te magoou, não seria surpresa que isto tenha ocorrido porque tal pessoa foi mais cautelosa do que justa com você.

Portanto, um homem passar a achar que nenhuma mulher presta, porque uma ou outra – ou quinze – já o traiu, desqualifica estas meninas e não a vítima da traição. Muito menos uma nova mulher que entre em sua vida, porque sua formação como indivíduo não passa, necessariamente, pela aderência – ou aceitação – aos conceitos e ao caráter das meninas que o traíram.

Isso não vale só para homens e mulheres, mas vale também para brancos e negros; protestantes e católicos; ocidentais e orientais; comunistas e capitalistas; flamenguistas e vascaínos; americanos e brasileiros; e por aí vai!

A generalização é uma ferramenta poderosa e extremamente útil e – embora esteja aí para qualquer um usar – não é diferente de uma faca, que serve pra cortar um pãozinho ou pra matar uma pessoa.

Já se discutiu muito sobre isso em um monte de disciplinas. Existe até o conceito chamado de Generalização Desmedida, ou Falácia, que nada mais é que sustentar um argumento aparentemente lógico – o Paralogismo – não apresentando evidências e estabelecendo uma visão reducionista de uma questão, agrupando coisas e pessoas sem que haja qualquer valor lógico na proposição. Bons exemplos são: “Todo mundo sabe que Argentino tem mania de grandeza” ou “Não é novidade para ninguém que Brasileiro só gosta de carnaval, praia e futebol”.

Não podemos nos esquecer que, quando criamos estes grupos na cabeça – onde encaixamos os indivíduos – o fazemos interpretando a realidade ao nosso redor. Nem sempre, contudo, nossa interpretação dos fatos é correta, o que nos faz ver como evidência algo que não é mais que uma coincidência infeliz e incriminadora. Neste processo, nasce um grupo que sequer devia existir ou uma impressão errada do que este grupo de fato é.

Aprender a generalizar responsavelmente é aprender que generalizações, assim como as estatísticas, servem o propósito de definir grupos e não indivíduos. E que um indivíduo só pode ser julgado pelos seus próprios atos e jamais deve pagar pelos atos de outrem.

Ser um pouco mais Tolerante através da forma como nos referimos às coisas e pessoas é um pequeno passo e pode até parecer pequeno demais, mas o leitor deve se lembrar que, para sair de onde se está para chegar a um lugar distante, só empreendendo a jornada um passo de cada vez.

A Impossibilidade da Generalização

“A gravura se refere ao prazer em se tentar e a irritante impossibilidade em se criar uma conclusão.

Não há possibilidade de esgotar um assunto e há sempre o que se questionar e dimensões inacabadas.”

“Não estou certo, por exemplo, se Nietzsche acreditava de fato no que escrevia. Portanto, gostar ou desgostar dele é pouco apropriado. Ele fez uma proposição, na qual talvez ele mesmo não acreditasse. Nela viu possibilidade de expressão. Foi prazeroso promover suas idéias bizarras qual fosse uma mina de ouro escondida que engolfava toda a raça humana. Linda, lógica, sua teoria era digna de ser propalada, mesmo que incorreta.”

“Ao nos imiscuirmos no espaço para compreendê-lo, é capaz de encontrarmos um poço, que dê passagem para outra “esfera”. Extraímos algo deste poço com uma polia e com a ajuda de um balde. E o balde está furado. Não há nenhuma generalização possível. Ela é a invenção mais terrível da raça humana.”

“Toda generalização se opõe a frase: “Falar é mentir”. O que vemos na vida é apenas um fragmento, uma parte, algo invariavel e profundamente incompleto.”

“Toda filosofia, independente de sua similaridade, tem em suas fronteiras um colossal espaço. O homem, diminuto, tem de fugir de uma esfera, cruzar este espaço para só então alcançar a passagem para uma nova esfera – sempre limitado pela vida.”

“Estamos livres neste periodo no tempo, na larguesa desta estrada que nos resta. Mas generalizar a vida é pequeno demais.”

Sergey Poyarkov
Balance of Contradictions

O Pórtico

Outubro 21, 2005  |  Como vejo o mundo...  |  17 Comments

Junto ao pórtico partido para o impossível, onde afrescos e relevos manifestavam o triunfo da sensatez sobre a estupidez, postava-se altivo e inabalável… sem soberba ou presunção

Para mim, parábolas são parábolas, venham elas de um livro cheio de tradição ou de um comercial de TV… e eis que, certa vez, Phlox, denobulano, médico e oficial da Enterprise NX-01 foi ao cinema com uma de suas colegas humanas a bordo. Uma vez que, ao invés de olhar para a tela ele olhava para as reações de todos a sua volta, a colega perguntou: “Não parece interessado no filme, Phlox. Não existem filmes em Denobula Triaxa?” – ao que ele respondeu: “Sim, temos algo semelhante… mas descobrimos que a vida real poderia ser muito mais interessante do que a ficção”.

Se assim pode vir a ser, para nós humanos, ou não eu não sei, entretanto me parece que faz um tempo que enveredamos por um caminho sem volta. Um caminho que passa pela resignificação do Homem para unidade produtiva, peça reposicionável e objeto dispensável individualmente, uma vez que facilmente substituível.

A sombra do medo de perder o superestimado e suposto conforto que se “tem” o homo laboris perde significado como um moribundo hemorrágico que sequer sabe verter, em baldes, o próprio sangue.

Semana passada um amigo – Mairus Maichrovicz – refletindo acerca da situação do mundo corporativo, me disse: “Nessa realidade trabalhamos como não queremos, torcendo para que as horas de cada dia passem o mais rápido possível para que cheguemos ao fim de semana e possamos gozar do conforto que o salário de cada mês nos propicia. Fazemos isso o mês inteiro, para que, ao final, ganhemos nosso salário que vai nos permitir querer que o próximo mês passe mais rápido… quando vemos já envelhecemos”.

Tentamos reencontrar a nós mesmos, enfim, em nossa vida pessoal, seja consumindo aquilo que achamos que precisamos – em nome do tal conforto – seja através de nossas relações com amigos ou com a pessoa amada.

Ah! E que conforto nos proporciona a pessoa amada! Nada mais reconfortante que fruir de uma apaixonada relação amorosa com a pessoa que se considera a certa e derradeira!

Particularmente, tive a sorte – diante da torturante realidade de ser obrigado a fazer meu trabalho de uma forma que não acredito certa – encontrar alguém especial no ambiente de trabalho.

Não sei quantos de vocês já tiveram a oportunidade de aderir a esta má prática deliciosa e que empresta um novo significado para tudo o que se faz no dia-a-dia.

Recomendar? Não me atribuam este papel! Opinião é que nem bunda – cada um tem a sua e, de repente, só sai |v|3rda.

Fato é, contudo, que o mundo é como é, pessoas não são ferramentas e, da mesma forma que o Homem é mais que uma unidade produtiva, a pessoa amada é mais que uma alavanca para alcançarmos a felicidade!

O breve texto de entrada ao topo deste pequeno ensaio descreve o dia-a-dia de um sujeito que viveu a 333 A.C., e que ensinava uma alternativa pouco convencional de se viver e de encarar a vida.

Zenon dissertava ao pé de um Pórtico erigido pelos atenienses após a vitória sobre os persas, que envergava imagens coloridas dos gregos derrotando os bárbaros.

O Pórtico – ou “stoa”, em grego – era o símbolo da vitória da sabedoria sobre a brutalidade, uma franca apologia à capacidade humana em lidar com seus problemas não somente com o ofertado pelos comportamentos óbvios e convenientes que são atribuídos à Natureza Humana, mas também com o ferramental desenvolvido a partir da reflexão, contemplação e sabedoria.

”O mundo é para quem nasce para o conquistar e não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão”, escreveu Pessoa, em Tabacaria.

E é aí que o Estoicismodoutrina fundada por Zenão de Cício (335-264a.C.), e desenvolvida por várias gerações de filósofos, que se caracteriza por uma ética em que a imperturbalidade, a estirpação das paixões e a aceitação resignada do destino, são as marcas fundamentais do homem sábio, o único apto a experimentar a verdadeira felicidade. de Zenon, do Pórtico, pode nos ajudar, uma vez que pregava-o como forma de manter a serenidade diante do revés e do triunfo.

Fugindo das noções artificiais e convenientes de necessidade, de conforto e de prazer, o Estoicismo defendia uma vida não conflitante com o entorno, simplicidade nas vestes, na alimentação e no estilo de vida.

Diante da adversidade “Abster-se e Resignar-se”.

Não se trata de não ligar para mais nada, apesar de Zenon ter sido profundamente influenciado por Crates, adepto da escola filosófica dos Cínicosrelativo a ou adepto da doutrina dos filósofos gregos Antístenes de Atenas (444-365 a.C) e Diógenes de Sinope (400-325 a.C.), que se caracteriza esp. pela oposição aos valores sociais e culturais em vigor, com base na convicção de que não é possível conciliar leis e convenções estabelecidas com a vida natural autêntica e virtuosa..

Trata-se de ser capaz de encarar os fatos sem otimismo e sem pessimismo, abstendo-se de ser tendencioso.

Zenon era filho de pais ricos e, a certa altura, perdeu todas suas posses em um naufrágio. Ao tomar conhecimento do ocorrido serenamente disse: “O destino queria que eu filosofasse mais desembaraçadamente”.

Não é que nada tenha importância ou significado… é que se, por desventura, a vida lhe atira limões, faça uma limonada!