Uma das mais surpreendentes faculdades humanas, a capacidade de fazer senso do que há entre o céu e a Terra, pode facilmente revestir-se de presunção e arrogância, embotando o que de bom existe em nossa vã filosofia.
“Tempos bicudos”, costumo dizer, indulgente em um dos muitos eufemismos que gosto de recitar para as pessoas que mais gosto – ao perceber a realidade à minha volta.
O leitor assíduo, e mesmo aquele que só dá as caras por aqui de tempos em tempos, já percebeu o tamanho de minha indisposição com meu entorno. E não há outra forma de encarar a questão, a não ser que se deseje cometer o pecado de ser profundo: “Tempos bicudos”…
O fato, contudo, é que há muita gente feliz por aí. Há gente feliz em toda parte. Não falo de gente feliz só com a própria vidinha e tal, mas feliz com tudo. Gente absolutamente feliz com tudo que o cerca.
Seria tão conveniente eu me permitir afirmar que aqueles que estão felizes com “as coisas” estão apenas equivocados, que são ignorantes do inferno para o qual, sob diversos aspectos, acordamos todos os dias…
…mas se o fizesse, eu não seria eu.
A minha noção do mundo, pra mim, é só uma noção. Na verdade, não a considero melhor ou pior que qualquer outra noção, ainda que tenha disposições em contrário a quaisquer delas.
A minha noção do mundo, enfim, é só uma noção mais recorrente em meu discurso, nada mais.
Talvez você já tenha percebido, mas eu simplesmente entendo minha noção do mundo e das coisas como irrelevante, como qualquer outra noção do mundo e das coisas.
Não se trata de Niilismoponto de vista que considera que as crenças e os valores tradicionais são infundados e que não há qualquer sentido ou utilidade na existência, juro, mas de uma prática à qual, com o tempo, acabei aderindo.
No meu entender, as noções de mundo são reflexo de nossa experiência dentro dele e acho uma pena, uma pena mesmo, que haja quem confie tanto apenas no próprio ponto de vista. Afinal, é tão fácil concordar consigo mesmo.
Sugere a Matemática – ou ao menos é o que dizem aqueles que nesta noção se fiam – que a Lógica é a mais efetiva forma de se concluir algo a partir de premissas disponíveis.
Parecem, contudo esquecer-se de que a própria Lógica, enquanto disciplina, postula que premissas verdadeiras também levam à conclusões falsas.
Mesmo quem não faz uso da Lógica, com rigor, para tirar conclusões acerca de qualquer coisa, procura concluir baseado em evidências.
“Teria o Michael Jackson ido pra cama com criancinhas?”, “Como foram feitas as Pirâmides do Egito?”, “Estaria minha esposa me traindo?”, “Por que os homens não baixam o assento do vaso?”, “Por que as mulheres reclamam do assento do vaso mas não acham que precisam baixar o tampo do vaso?”, “Eram os Deuses astronautas?”, “Se uma árvore cair numa floresta, sem ninguém por perto, haverá som?”, “Existe vida após a morte?”, “Quem veio primeiro, o ovo ou a galinha?”, “Deus existe?”.
Estas são questões que jamais foram completamente respondidas e, no entanto, muitos de nós têm noções tão fortes acerca das respostas para cada uma destas perguntas. Muitos de nós até, arrisco dizer, têm a pachorra de afirma ter a certeza absoluta de que sua resposta é a certa e que as demais respostas estão simplesmente erradas… tudo, claro, baseando-se na experiência própria e desqualificando completamente o fato de que cada um dos demais também basearam suas conclusões na própria experiência.
Conclusões são armas poderosas para que funcionemos no mundo. Permitem-nos aprender com o passado, nos indicam que há conseqüências para nossos atos e, por conseguinte nos ajudam a tomar decisões acerca do que fazer no presente, normalmente perfilando uma estratégia para nossas decisões futuras. Este ferramental, que nos permite refletir e concluir é, portanto, essencial para que desenvolvamos nossos princípios e a base de nossa moral.
Este ferramental, contudo, não infere apenas em nossa moral. É bastante comum que um conjunto de conclusões acerca do que nos cerca vá ganhando adeptos. Tais conclusões, enfim, acabam se tornando convicções e tais convicções acabam por desenhar toda uma parcela, senão a totalidade, da sociedade.
A despeito de ser ensinado nas escolas, a Teoria da Gravitação Universal, de Newton, estava fundamentalmente imprecisa – para não dizer equivocada – e sua mais famosa fórmula seria capaz de fazer com que jamais alcançássemos Plutão – por exemplo.
Não me entendam mal… sem Newton, Einstein “jamais” chegaria à Teoria Geral da Relatividade. Não consigo, entretanto, tirar da cabeça que, ao contrário do que se deseja acreditar, toda a Teoria da Gravitação Universal – embora bastante “boa” – estava longe de ser excelente e, embora intuísse brilhantemente que todo corpo dotado de massa atraía outros corpos dotados de massa, neste mesmo particular estava simplesmente errada.
Enquanto coçam o queixo gostaria de lembrar que a Teoria Geral da Relatividade reza que não se trata de mera atração. O fundamento do comportamento dos mencionados corpos se dá devido à natureza do “tecido do espaço”. Segundo Einstein, corpos com massa provocam uma distorção na geometria do Universo, o que ocasiona um movimento mútuo de cada um deles.
Pode parecer preciosismo, contudo, ignorar a relação de causa e efeito em uma teoria supostamente responsável por cálculos – e conclusões – necessariamente precisos, não é muito diferente que acreditar que o coração é a fonte do pensamento baseando-se em que, ao pensar em alguém, suas palpitações se alteram em ritmo (teoria largamente aceita na idade média).
Boa parte da Teoria Geral da Relatividade – como qualquer teoria cosmológica – é 60% abstração, 30% genialidade e 10% realidade, coisa da qual não se consegue fugir, uma vez que significativas parcelas da teoria de Einstein vêm sendo invalidadas continuamente pela Mecânica Quântica e por teorias mais obscuras – ou menos populares.
Não há mais muito como esconder: apesar de toda sua popularidade, a teoria Einsteiniana está relativamente errada (!) uma vez que ela sustenta que a velocidade da luz é constante, o que foi refutado recentemente.
Conclusões se baseiam em premissas, evidências e – tentem me demover da idéia – ponto de vista!
Em breve a Mecânica Quântica estará em jogo e a teoria que a colocar abaixo também será posta de lado daqui algum tempo. Isso não desqualifica nem a Comunidade Científica nem o Método Científico… mas pode ser encarado como uma bela fábula, que deveria nos demover da necessidade de acreditar que temos quase que absoluta certeza que, de repente, devemos estar certos se tudo o que entendemos como correto realmente o for – por mais provável que seja.
Cientistas, acadêmicos, leigos, muitos vão se debater contra a idéia - nem que seja por tradição! - e, no final, vão ter de se render diante das evidências e conclusões… diante dos “fatos”!
Mas que “fatos” são estes? Diferenciar “fatos” de “flatos” em métodos baseados em FalsificacionismoKarl Popper nega que os cientistas começam com observações e inferem depois uma teoria geral. Em vez disso, afirma, propõem uma teoria, apresentando-a como uma conjectura inicialmente não corroborada, e depois comparam as suas previsões com observações para ver se ela resiste aos testes. Se esses testes se mostrarem negativos, então a teoria será experimentalmente falsificada e os cientistas irão procurar uma nova alternativa. Se, pelo contrário, os testes estiverem de acordo com a teoria, então os cientistas continuarão a mantê-la não como uma verdade provada, é certo, mas ainda assim como uma conjectura não refutada. é chover no molhado! O Método Científico, como tantos outros métodos, é útil, entretanto é só relativamente útil.
Toda teoria é uma denúncia, por certo, e a capacidade de tirar conclusões é uma das faculdades humanas mais importantes e fascinantes… mas se achamos isso de fato, por que parar? Por que devemos simplesmente agarrar-nos a nossas primeiras ou segundas conclusões e parar por dezenas ou centenas de anos, criando uma forma de “moralismo cognitivo” no lugar de questionarmos este comportamento.
Ainda que toda teoria seja uma denúncia, o que há de denúncia vazia por aí não tá no gibi!
Questionar nossas conclusões não é errado, não as desqualifica e não fere sua pureza. Colocar em perspectiva as conclusões às quais chegamos não só é prudente, mas sensato e sábio. É observar nosso objeto de estudo por mais de um ângulo e acaba nos tornando simpáticos às formas que os demais enxergam as mesmas questões, inevitavelmente nos tornando mais tolerantes com noções diferentes das nossas.
Pouco importa que usei um pedacinho da História da Ciência para afirmar isso – ao menos é esta a minha noção – usasse eu uma fábula qualquer, como “A Roupa nova do Rei”, ou qualquer outra, ainda assim eu estaria querendo dizer o seguinte:
A mentira tolerável é aquela na qual você acredita!
…mas uma vez que minha noção é irrelevante, você bem pode ignorar tudo que leu. Colocar as próprias noções em cheque?… pra que?
O meu raciocínio é contra-intuitivo, com relação a esta questão, sei disso.
Para mim todo evento é uma Fábula. A forma como o Método Científico cria e desqualifica teorias pregressas – e a forma como os leigos encaram tal processo – descrevem uma Fábula bastante consistente, a meu ver.
Fábulas, para mim, são ferramentas importantes para promover a reflexão.
No meu entender, a noção de que é ideal usar um só conjunto de premissas, para identificar e qualificar evidências, é falha e perigosa. Mais que isso… é fundamentalista.
Ao menos é o que me parece.
Assim como a fábula que identifiquei na História da Ciência, outra fábula - desta vez fictícia - que aponta na mesma direção, a meu ver, é “A Roupa nova do Rei“, que pode ser lida na continuação deste pequeno ensaio.
Física Quântica . A Relatividade de Lorentz
Universidade do Colorado . A velocidade da luz é variável?
Harkess Research . Rasões pelas quais Einstein estava errado
Crank.net . Einstein estava errado
GS Journal . A evidência crescente
Google.com.br . “Einstein was wrong”
Google.com.br . “Einstein estava errado”
Outra denúncia?
NASA Cosmology 101 . O Universo é infinito?
Universe Review . Gráfico da Geometria do Universo
Astronomynotes.com . O Universo é aberto ou fechado?
eCientificoCultural.com . Teoria sobre o Método Científico
Didactica . O falsificacionismo de Karl Popper
CFH . A doutrina do Falseamento em Popper
Galilean Library . Tipos de Falsificacionismo
Wikipedia.org . Falsificacionismo
Outra fábula?
5arcasmos |v|últiplos . A Roupa nova do Rei



Por mais que se tenha pisado na grama a vida toda, se um dia nos parecer importante, podemos passar a não fazê-lo.
Mas sabe como é criança… eu queria beber todas as quatro que davam sopa na geladeira - e que provavelmente iam durar a semana toda.
Papo chato… e por isso eu não vou entrar nele. Mas faz o seguinte: vai no site
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Um dos primeiros parabéns do dia veio por SMS. Daqueles parabéns que nos forçam a visita de um sorriso ao rosto. Veio por de um de meus mestres… de um grande amigo. E, por acaso, navegando por pastas de e-mail muito pouco navegadas, achei um de seus textos.
“Que obra de arte é o homem; tão nobre no raciocínio, tão vário na capacidade; em forma e movimento, tão preciso e admirável, na ação é como um anjo, no entendimento é como um deus; a beleza do mundo, o exemplo dos animais.”
Nada mais havia a fazer o resto do dia e poderia, orgulhoso, descer de sua bela montaria e apreciar-lhe o magnífico porte enquanto era escovado e limpo.
“Ah, como seria bom se tudo fosse tão perfeito quanto um Cavalo Árabe” – pensava – “As criaturas seriam menos suscetíveis e substituíveis, seriam mais importantes que são hoje.”
“Todos teriam sorrisos nos rostos e não mais se fixariam no vazio dos dotes acumulados.”
“Com o dinheiro dos fazendeiros fluindo por entre os não-mais-escravos iam todos ter o razoável e não a riqueza obscena que se tem para… espere um instante?!”
Conheço pouca gente que se preocupe com tais problemas no dia-a-dia. Na maior parte dos casos as pessoas acham até muito chato pensar a respeito dessas coisas, não dominam o jargão nem o ferramental para discutí-las e, muitas vezes, acham até que a visão de que há um problema não seja nada mais que pessimismo.
Já mencionei que minha preocupação é muito menos se as coisas poderiam ser piores e muito mais se as coisas poderiam ser melhores. Seja como for, ao que parece, a maior parte das pessoas que conheço estão bastante mais satisfeitas que eu com seu entorno.
Em dado momento, o que hoje chamamos de Tecnologia não era senão o estudo da técnica ou um reduzido conjunto de técnicas. O impacto desta panacéia – deste “remédio para todos os males” – era então bem menor que aquele empreendido nos últimos séculos, em que este conjunto de técnicas se tornou tão colossal.
Os valores que fomos adquirindo, graças a nos acostumarmos com o conforto que pode ser proporcionado pela Tecnologia e suas conseqüências, nos fez perverter nossos valores para uma condição de viver para o prazer, viver para conseguir mais conforto, viver para adquirir mais Tecnologia.
Ela bem poderia, contudo, ser uma alegoria do conforto que a Tecnologia nos oferece, a despeito de ser pouco mais que um reflexo da imaginação humana e guardar menos relação do que se pode imaginar, com o que está a sua volta. Em suma… um mero sintoma.
Em mais um presunçoso debate acerca do Homem, do mundo e das coisas, eu, Cristiano Dias e Eduardo Gouveia, passeávamos por Tecnologia, Ciência, Filosofia e tudo mais sobre o que o construímos nossa realidade…
Parece-me haver estreita relação entre nossa insegurança em não ter controle sobre as coisas, as pessoas e os acontecimentos e nossa obsessão em conseguir respostas, no lugar de continuamente investigar a
Vivemos em um mundo onde as pessoas têm pouco ou nenhum tempo para o crescimento pessoal, para o questionamento moral ou aquisição de conhecimento; um mundo onde a formação acadêmica e profissional é altamente especializada e orientada à resultados, à eficiência e à objetividade; um mundo onde cada indivíduo tem formação tão diversa da de seus semelhantes que sequer é capaz de compreender o que fazem, o que os move e o porquê de pensarem de determinada forma.
É uma relação neurótica com um
Outro dia, um amigo do trabalho – o José Vasconcelos – colocou um comentário em um texto meu aqui do 5arcásmos |v|últiplos.
O comentário se referia a uma piada: um homem vai ao médico dizendo estar deprimido. Ele se lamenta afirmando que a vida é dura e cruel, que sente-se só e ameaçado em um mundo onde o que está adiante é vago e incerto. O médico, confiante, retruca que “O tratamento é simples. O grande palhaço Pagliacci estará na cidade esta noite. Vá assisti-lo! Isto com certeza vai fazê-lo sentir-se melhor”. O pobre homem cai em prantos… “Mas, Doutor… Eu sou Pagliacci.”.
O filme se chama “
Perseguido pelo desejo de continuar a saga de crueldade, acentuando a diferença que existe, ou que ele deseja que exista, entre ele e seu meio, o personagem vê-se também “assombrado” por um detetive de comportamento e percepção absolutamente inverossímeis.
Percebi uma relação sombria, um subtexto soturno, que apontava para o significado intrínseco de nutrir e perpetuar um sistema capaz de gerar tamanha diferença entre os indivíduos, capaz de elevar um grupo tão reduzido até os estertores da indecência e da imoralidade através do dinheiro e do poder.
Não é difícil concluir que até mesmo a identidade de um indivíduo, tão alienado de seu meio e de sua noção de eu, fica profundamente comprometida. Fica fácil imaginar que tamanha supremacia torna o indivíduo incapaz de importar-se com questões que aflijam a quaisquer pessoas que não tenham relação com seus próprios interesses.








