Jul 16

Uma das mais surpreendentes faculdades humanas, a capacidade de fazer senso do que há entre o céu e a Terra, pode facilmente revestir-se de presunção e arrogância, embotando o que de bom existe em nossa vã filosofia.

“Tempos bicudos”, costumo dizer, indulgente em um dos muitos eufemismos que gosto de recitar para as pessoas que mais gosto – ao perceber a realidade à minha volta.

O leitor assíduo, e mesmo aquele que só dá as caras por aqui de tempos em tempos, já percebeu o tamanho de minha indisposição com meu entorno. E não há outra forma de encarar a questão, a não ser que se deseje cometer o pecado de ser profundo: “Tempos bicudos”…

O fato, contudo, é que há muita gente feliz por aí. Há gente feliz em toda parte. Não falo de gente feliz só com a própria vidinha e tal, mas feliz com tudo. Gente absolutamente feliz com tudo que o cerca.

Seria tão conveniente eu me permitir afirmar que aqueles que estão felizes com “as coisas” estão apenas equivocados, que são ignorantes do inferno para o qual, sob diversos aspectos, acordamos todos os dias…

…mas se o fizesse, eu não seria eu.

A minha noção do mundo, pra mim, é só uma noção. Na verdade, não a considero melhor ou pior que qualquer outra noção, ainda que tenha disposições em contrário a quaisquer delas.

A minha noção do mundo, enfim, é só uma noção mais recorrente em meu discurso, nada mais.

Talvez você já tenha percebido, mas eu simplesmente entendo minha noção do mundo e das coisas como irrelevante, como qualquer outra noção do mundo e das coisas.

Não se trata de Niilismoponto de vista que considera que as crenças e os valores tradicionais são infundados e que não há qualquer sentido ou utilidade na existência, juro, mas de uma prática à qual, com o tempo, acabei aderindo.

No meu entender, as noções de mundo são reflexo de nossa experiência dentro dele e acho uma pena, uma pena mesmo, que haja quem confie tanto apenas no próprio ponto de vista. Afinal, é tão fácil concordar consigo mesmo.

Sugere a Matemática – ou ao menos é o que dizem aqueles que nesta noção se fiam – que a Lógica é a mais efetiva forma de se concluir algo a partir de premissas disponíveis.

Parecem, contudo esquecer-se de que a própria Lógica, enquanto disciplina, postula que premissas verdadeiras também levam à conclusões falsas.
Mesmo quem não faz uso da Lógica, com rigor, para tirar conclusões acerca de qualquer coisa, procura concluir baseado em evidências.

“Teria o Michael Jackson ido pra cama com criancinhas?”, “Como foram feitas as Pirâmides do Egito?”, “Estaria minha esposa me traindo?”, “Por que os homens não baixam o assento do vaso?”, “Por que as mulheres reclamam do assento do vaso mas não acham que precisam baixar o tampo do vaso?”, “Eram os Deuses astronautas?”, “Se uma árvore cair numa floresta, sem ninguém por perto, haverá som?”, “Existe vida após a morte?”, “Quem veio primeiro, o ovo ou a galinha?”, “Deus existe?”.

Estas são questões que jamais foram completamente respondidas e, no entanto, muitos de nós têm noções tão fortes acerca das respostas para cada uma destas perguntas. Muitos de nós até, arrisco dizer, têm a pachorra de afirma ter a certeza absoluta de que sua resposta é a certa e que as demais respostas estão simplesmente erradas… tudo, claro, baseando-se na experiência própria e desqualificando completamente o fato de que cada um dos demais também basearam suas conclusões na própria experiência.

Conclusões são armas poderosas para que funcionemos no mundo. Permitem-nos aprender com o passado, nos indicam que há conseqüências para nossos atos e, por conseguinte nos ajudam a tomar decisões acerca do que fazer no presente, normalmente perfilando uma estratégia para nossas decisões futuras. Este ferramental, que nos permite refletir e concluir é, portanto, essencial para que desenvolvamos nossos princípios e a base de nossa moral.

Este ferramental, contudo, não infere apenas em nossa moral. É bastante comum que um conjunto de conclusões acerca do que nos cerca vá ganhando adeptos. Tais conclusões, enfim, acabam se tornando convicções e tais convicções acabam por desenhar toda uma parcela, senão a totalidade, da sociedade.

A despeito de ser ensinado nas escolas, a Teoria da Gravitação Universal, de Newton, estava fundamentalmente imprecisa – para não dizer equivocada – e sua mais famosa fórmula seria capaz de fazer com que jamais alcançássemos Plutão – por exemplo.

Não me entendam mal… sem Newton, Einstein “jamais” chegaria à Teoria Geral da Relatividade. Não consigo, entretanto, tirar da cabeça que, ao contrário do que se deseja acreditar, toda a Teoria da Gravitação Universal – embora bastante “boa” – estava longe de ser excelente e, embora intuísse brilhantemente que todo corpo dotado de massa atraía outros corpos dotados de massa, neste mesmo particular estava simplesmente errada.

Enquanto coçam o queixo gostaria de lembrar que a Teoria Geral da Relatividade reza que não se trata de mera atração. O fundamento do comportamento dos mencionados corpos se dá devido à natureza do “tecido do espaço”. Segundo Einstein, corpos com massa provocam uma distorção na geometria do Universo, o que ocasiona um movimento mútuo de cada um deles.

Pode parecer preciosismo, contudo, ignorar a relação de causa e efeito em uma teoria supostamente responsável por cálculos – e conclusões – necessariamente precisos, não é muito diferente que acreditar que o coração é a fonte do pensamento baseando-se em que, ao pensar em alguém, suas palpitações se alteram em ritmo (teoria largamente aceita na idade média).

Boa parte da Teoria Geral da Relatividade – como qualquer teoria cosmológica – é 60% abstração, 30% genialidade e 10% realidade, coisa da qual não se consegue fugir, uma vez que significativas parcelas da teoria de Einstein vêm sendo invalidadas continuamente pela Mecânica Quântica e por teorias mais obscuras – ou menos populares.

Não há mais muito como esconder: apesar de toda sua popularidade, a teoria Einsteiniana está relativamente errada (!) uma vez que ela sustenta que a velocidade da luz é constante, o que foi refutado recentemente.

Conclusões se baseiam em premissas, evidências e – tentem me demover da idéia – ponto de vista!

Em breve a Mecânica Quântica estará em jogo e a teoria que a colocar abaixo também será posta de lado daqui algum tempo. Isso não desqualifica nem a Comunidade Científica nem o Método Científico… mas pode ser encarado como uma bela fábula, que deveria nos demover da necessidade de acreditar que temos quase que absoluta certeza que, de repente, devemos estar certos se tudo o que entendemos como correto realmente o for – por mais provável que seja.

Cientistas, acadêmicos, leigos, muitos vão se debater contra a idéia - nem que seja por tradição! - e, no final, vão ter de se render diante das evidências e conclusões… diante dos “fatos”!

Mas que “fatos” são estes? Diferenciar “fatos” de “flatos” em métodos baseados em FalsificacionismoKarl Popper nega que os cientistas começam com observações e inferem depois uma teoria geral. Em vez disso, afirma, propõem uma teoria, apresentando-a como uma conjectura inicialmente não corroborada, e depois comparam as suas previsões com observações para ver se ela resiste aos testes. Se esses testes se mostrarem negativos, então a teoria será experimentalmente falsificada e os cientistas irão procurar uma nova alternativa. Se, pelo contrário, os testes estiverem de acordo com a teoria, então os cientistas continuarão a mantê-la não como uma verdade provada, é certo, mas ainda assim como uma conjectura não refutada. é chover no molhado! O Método Científico, como tantos outros métodos, é útil, entretanto é só relativamente útil.

Toda teoria é uma denúncia, por certo, e a capacidade de tirar conclusões é uma das faculdades humanas mais importantes e fascinantes… mas se achamos isso de fato, por que parar? Por que devemos simplesmente agarrar-nos a nossas primeiras ou segundas conclusões e parar por dezenas ou centenas de anos, criando uma forma de “moralismo cognitivo” no lugar de questionarmos este comportamento.

Ainda que toda teoria seja uma denúncia, o que há de denúncia vazia por aí não tá no gibi!

Questionar nossas conclusões não é errado, não as desqualifica e não fere sua pureza. Colocar em perspectiva as conclusões às quais chegamos não só é prudente, mas sensato e sábio. É observar nosso objeto de estudo por mais de um ângulo e acaba nos tornando simpáticos às formas que os demais enxergam as mesmas questões, inevitavelmente nos tornando mais tolerantes com noções diferentes das nossas.

Pouco importa que usei um pedacinho da História da Ciência para afirmar isso – ao menos é esta a minha noção – usasse eu uma fábula qualquer, como “A Roupa nova do Rei”, ou qualquer outra, ainda assim eu estaria querendo dizer o seguinte:

A mentira tolerável é aquela na qual você acredita!

…mas uma vez que minha noção é irrelevante, você bem pode ignorar tudo que leu. Colocar as próprias noções em cheque?… pra que?

Para quem precisa de maiores explicações…
O meu raciocínio é contra-intuitivo, com relação a esta questão, sei disso.

Para mim todo evento é uma Fábula. A forma como o Método Científico cria e desqualifica teorias pregressas – e a forma como os leigos encaram tal processo – descrevem uma Fábula bastante consistente, a meu ver.

Fábulas, para mim, são ferramentas importantes para promover a reflexão.

No meu entender, a noção de que é ideal usar um só conjunto de premissas, para identificar e qualificar evidências, é falha e perigosa. Mais que isso… é fundamentalista.

Ao menos é o que me parece.

Assim como a fábula que identifiquei na História da Ciência, outra fábula - desta vez fictícia - que aponta na mesma direção, a meu ver, é “A Roupa nova do Rei“, que pode ser lida na continuação deste pequeno ensaio.

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Jun 24

Por mais que se tenha pisado na grama a vida toda, se um dia nos parecer importante, podemos passar a não fazê-lo.

Lembro-me que, quando era mais novo, eu não tinha medida para tomar Coca-Cola. Coca-Cola é um troço muito bom, gostoso mesmo. Eu, pelo menos, adoro. Na verdade, não existia Coca-Cola Light (nem Diet), na “minha época” e eu bebia em escala industrial!

Meus amigos lembram da quantidade de Coca-Cola que eu tomava, creio. A piada padrão era o impacto que seria nas ações da Coca-Cola se eu parasse de beber aquele líquido preto e borbulhante.

Mais tarde, já trabalhando, eu comprava uma caixa de uma dúzia por dia, para beber enquanto trabalhava.

A idade foi chegando e houve necessidade de reduzir o açúcar. Como já existia a Coca-Cola Light, tudo ficou mais fácil. Aconteceu também que notei que a própria taxa de consumo de Coca-Cola acabava me fazendo mal. Hoje, de um modo geral, almoço bebendo água com gás e só janto tomando Coca-Cola… e Light, claro…

Nem sempre Coca-Cola foi uma coisa tão trivial. Houve época em que a Coca-Cola foi um luxo. Era até bem carinha - se é que não é cara hoje. As garrafas eram de vidro e ter um litro à mesa era tudo. Duas Cocas na refeição? Não! Que exagero! Mais que dava para três pessoas!

Mas sabe como é criança… eu queria beber todas as quatro que davam sopa na geladeira - e que provavelmente iam durar a semana toda.

Recentemente vi na GNT um documentário que falava de uma pesquisa sobre comportamento infantil. Segundo a pesquisa, as crianças de menos de oito anos preferiam ganhar um bombom de imediato que dois após meia hora.

Outra pesquisa que vi, não sei onde, demonstrava que crianças de menos de quinze anos preferiam comer cinco docinhos em um dia que guardar para ter docinhos a semana toda. O triunfo da urgência do desejo sobre a prudência do planejamento.

Ver o fundo do pacote pode parecer estar dentro de nós… coisa de “natureza humana” e tal, mas no fim, afinal, a gente cresce, não?

Pois é…

Muita gente ainda vê questões ecológicas como coisa típica daquele pessoal que bem poderia bem entrar pra Amway ou que se amarra em polemizar - gente chata! Questões ecológicas, contudo, tem estreita relação com essa tal “natureza humana”, a qual eu daria o nome de, digamos… “Imaturidade Logística”.

A rigor, bombons são docinhos e docinhos são recursos. Adultos, supõe-se, se relacionam com recursos, de forma mais planejada. Eles se preocupam em armazenar, economizar e, enfim, criar um processo sustentável de manutenção da quantidade de bombons - e docinhos de um modo geral.

Muitos recursos por nós usados são renováveis, entretanto, a taxa de renovação dos recursos varia de recurso para recurso.

A má notícia é que estamos consumindo nossos recursos muito mais rápido que eles tem condição de se renovar…

…a boa, é que, se cada um de nós resolver usar só que realmente precisa, ao invés de usar do jeito que tem vontade, é possível reverter este quadro.

Papo chato… e por isso eu não vou entrar nele. Mas faz o seguinte: vai no site EcoFoot.org. Basta escolher seu país e língua e você descobre qual o tamanho da pegada que você tem deixado nesse planetinha que nos acolhe desde que nascemos até hoje.

Além de possivelmente ficar impressionado, é capaz de você passar a pensar duas vezes antes de dar o próximo passo por sobre o gramado de nossos recursos…

Faça agora o “Teste da Pegada”!

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Jun 21

Um dos primeiros parabéns do dia veio por SMS. Daqueles parabéns que nos forçam a visita de um sorriso ao rosto. Veio por de um de meus mestres… de um grande amigo. E, por acaso, navegando por pastas de e-mail muito pouco navegadas, achei um de seus textos.

Recentemente fui bombardeado com filmes, livros, quadros, pinturas e situações no campo emocional e profissional que me deixaram profundamente desconcertado com a realidade.

Indisposições crônicas, com o meio, à parte, a sucessão de películas como “O Articulador“, “Anti-Herói Americano“, “Adaptação“, “Quero ser John Malkovich“, “Pi“, “Brazil“, “1984“, “O Processo” - só pra falar de alguns dos filmes - não tem como não provocar uma ruptura com o entorno e uma “desconstrução do Harry” que há em mim.

O dia do envelhecer é um dia delicado… A soma de todos os dias desde o último aniversário… O único dia de chuva franca depois de tantos dias de Sol… 21 de Junho é, afinal, o dia que traz na bagagem o Inverno… Seria este o Inverno do meu descontentamento?

Quem sabe?

Seja como for, dou lugar - uma vez mais - às sábias palavras de Eduardo Gouveia que, creio eu, devia ser lido por mais gente!

“Minha vida é faminta de opções.
Alimento-me delas.
Vivo de devorá-las vorazmente, com fome de migalhas caídas ao chão.
Ancho abdome, corrompido pela saciedade dos devires extintos.
Não gozo pela vida que me escorre à farta pela garganta já sem gosto.
Gozo pela consumação de mais uma escolha, pelo esgotamento de uma possibilidade.
Respiro aliviado pela letra vencida, a vírgula já posta, a decisão tomada, o peso descido e digesto.
Subsisto, intangível estoque de renúncias, dádiva do compromisso que assumo com o que não escolhi.
Não fui e pronto! Não serei nunca mais. Não mais é preciso sê-lo.
Basta-me ter escolhido o que já fui. Vejamos logo o que ainda me cabe decidir.
Vivo mesmo é de esgotar possibilidades. Existir é escolher.”
por Eduardo Augusto Gouveia dos Santos
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Mar 24

“Que obra de arte é o homem; tão nobre no raciocínio, tão vário na capacidade; em forma e movimento, tão preciso e admirável, na ação é como um anjo, no entendimento é como um deus; a beleza do mundo, o exemplo dos animais.”

O Senhor da fazenda chegava à casa grande depois de uma ida à cidade.
Seguiam-no as carroças de café, já sem suas cargas mas apinhadas de negros cansados e pingando suor, tantas foram as sacas que haviam sido embarcadas no Porto de Santos.

Nada mais havia a fazer o resto do dia e poderia, orgulhoso, descer de sua bela montaria e apreciar-lhe o magnífico porte enquanto era escovado e limpo.

Já de cima da varanda da casa grande, sentado em sua cadeira predilecta, via sua excêntrica aquisição, o Cavalo Árabe que comprara de Assis Brasil.

Não havia outro fazendeiro que tivesse bem tão precioso e belo, mas tinha certeza que todos lhe invejavam ao saber-lhe a posse de tão grandioso animal.

O Sol lhe incomodava sobremaneira sem a brisa que lhe vinha ao rosto enquanto montava, e fez sinal para que um negro lhe viesse abanar.

Sem saber bem o que fazer, o escravo sacudia sem muita destreza o abanador de madeira e palha.

Era nessas horas que o Senhor tinha certeza da superioridade que Deus havia lhe dado sobre aquelas criaturas feias, preguiçosas e insubordinadas. Era nessas horas que lhe vinham filosofias à cabeça…

“Ah, como seria bom se tudo fosse tão perfeito quanto um Cavalo Árabe” – pensava – “As criaturas seriam menos suscetíveis e substituíveis, seriam mais importantes que são hoje.”

“Se assim fosse” – continuava – “tudo seria mais belo e durável, minhas vestes seriam as mais airosas e duradouras, a casa grande não teria de ser caiada tantas vezes por ano e as rodas das carroças seriam mais resistentes aos buracos do caminho.”

“Os compadres, por hombridade, já não precisariam cobrir as negrinhas para parecerem viris e sentir-se poderosos. E os casamentos seriam felizes por muito mais tempo.”

“E como a felicidade conjugal duraria mais, as gentes não iam precisar de tanto conforto para suprir a felicidade que lhes falta e acabariam adquirindo menos posses.”

“Todos teriam sorrisos nos rostos e não mais se fixariam no vazio dos dotes acumulados.”

“Por não precisar mais ganhar tanto dinheiro os Senhores do Café não iam precisar produzir tanto, necessitar de tantas mãos no campo e poderiam dividir suas posses entre aqueles que trabalham.”

“Todos poderiam ser iguais ainda que não o fossem e, cheios de dignidade, transformar o trabalho em algo edificante, nada penoso, podendo até receber um bom dinheiro, pois haveria muito!”

“As fazendas iriam ver os negros escravos como homens de bem, iguais, e precisariam produzir menos café, dando tempo aos pobres para ler, escrever e fazer arte!”

“Com o dinheiro dos fazendeiros fluindo por entre os não-mais-escravos iam todos ter o razoável e não a riqueza obscena que se tem para… espere um instante?!”

“Mas e eu? Eu ia acabar não tendo tanto… E se não tivesse tanto, ia acabar não podendo comprar meu Puro-Sangue…”

“…Pensando bem: que bom que nem tudo é tão perfeito quanto um Cavalo Árabe, não é?”

E se quiser saber do que estou falando, tenha um pouco de paciência e clique no link abaixo para ver um vídeo publicitário (5,11 Mbytes):
“Pensando bem…” - A nova campanha da Volkswagen

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Fev 22

Piada ou não, não há nada mais eloqüente do que a realidade.

A importância atribuída à valores morais, espirituais, artísticos e humanos, pelo Homem de hoje, está profunda e talvez irremediavelmente comprometido.

E, se é discutível que tal comprometimento seja irremediável, é dificilmente contestável que tal comprometimento seja profundo.

Conheço pouca gente que se preocupe com tais problemas no dia-a-dia. Na maior parte dos casos as pessoas acham até muito chato pensar a respeito dessas coisas, não dominam o jargão nem o ferramental para discutí-las e, muitas vezes, acham até que a visão de que há um problema não seja nada mais que pessimismo.

Qualquer um, contudo, está fadado a sofrer as conseqüências da existência de tais problemas, ainda que não relacione cada uma destas questões às suas causas menos óbvias.

Saindo um pouco do campo da abstração, no dia-a-dia alguns pais não sabem lidar com crianças nunca antes tão rebeldes; a todo momento ouvimos na TV que algum país foi bombardeado por motivos que de fato jamais foram comprovados; volta e meia escutamos que pessoas em outro país comem carne do melhor amigo do Homem; repetidamente percebemos os meios de comunicação perpetuando um modelo de beleza tão determinista quanto irreal; e, não raro, a comercialização de práticas cirúrgicas como se fossem meros serviços.

Além de se tratar de questões do dia-a-dia, tais situações não só jamais foram resolvidas como vêm se agravando. Uma idéia comum – nos meios acadêmicos relacionados com o questionamento moral – é que tais questões podem ter raízes em um problema comum, ou em um conjunto de problemas comuns.

Não, não se está dizendo por aí que se trata de uma conspiração governamental ou uma dissimulada estratégia de um governo invisível – ou por outra até se está dizendo isso em alguns círculos, mas não tanto nos meios acadêmicos.

Uma das idéias mais comuns – já há muito tempo – em Filosofia, Antropologia e Sociologia, é a de que há uma inclinação natural para o movimento social observado em nossa civilização, diante do conjunto de escolhas morais e suas inter-relações desde, digamos, o século XVI.

Pode parecer muito estranho que exista um motivo comum para a “má-criação” das crianças de hoje e as características freqüentes em todas as modelos nas capas de revistas femininas. Mas, como sustento aqui, é justamente isso que o pessoal das tais Ciências Humanas vêm comentando.

Já mencionei que minha preocupação é muito menos se as coisas poderiam ser piores e muito mais se as coisas poderiam ser melhores. Seja como for, ao que parece, a maior parte das pessoas que conheço estão bastante mais satisfeitas que eu com seu entorno.

Temos, entretanto, de lembrar que, à época da ditadura, aqueles que discordavam do sistema e que eram exilados ou até mortos – sim, aquela gente que protagonizava o “Anos Rebeldes” – eram a minoria, eram considerados maus meninos por seus pais e pelos vizinhos, e sobretudo eram chamados, pelo governo, de terroristas.

Isso coloca em perspectiva gente maluca como eu, que parece estar gritando para todo mundo ouvir que “o fim está próximo”, que “não está bom do jeito que está” ou que “alguma coisa está fora da ordem”.

Vem sendo dito por esse pessoal - que se formou em cadeiras chatas e aparentemente desnecessárias como a Filosofia, Sociologia, Antropologia e História - que um dos motivos das nossas mais alarmantes e meramente desconfortáveis questões sociais, é justamente aquilo que vem nos proporcionando mais conforto: a Tecnologia.

Antes de concordar ou discordar da proposição, é bom entendermos como é que essa gente esquisita discute questões morais e como identificam as causas de conseqüências como as descritas mais acima neste texto. Eles se questionam o tempo todo, usando sim métodos e premissas mais ou menos fixas, mas nunca conseguindo livrar-se do fato de que, em Ciências Humanas, o número de variáveis é muito maior que o presente nas mais complexas equações matemáticas.

Segundo eles, o conforto proporcionado pela tecnologia, embora valoroso e logicamente muito conveniente, tem conseqüências sérias e que tendem a perpetuar a si mesmas.

Não se trata de parar de ler esse texto e ir quebrar o aparelho de DVD mais próximo ou ser um ativista “anti-ar-condicionados”, mas sim de se recostar e continuar lendo e questionando tudo o que está escrito, tendo em mente que temos a conveniente tendência de concordarmos com nossas próprias opiniões.

Em dado momento, o que hoje chamamos de Tecnologia não era senão o estudo da técnica ou um reduzido conjunto de técnicas. O impacto desta panacéia – deste “remédio para todos os males” – era então bem menor que aquele empreendido nos últimos séculos, em que este conjunto de técnicas se tornou tão colossal.

Hoje muitos dos frutos da Tecnologia só podem existir graças a terem envolvido um conjunto de técnicas vertiginoso, um grupo de pessoas enorme e uma movimentação econômica descomunal. Não seríamos capazes de construir sozinhos, ou com a ajuda de todo o pessoal do condomínio, um alto percentual dos aparelhos e até dos móveis que temos em casa.

Sem as incontáveis linhas de montagem que nos proporcionam todo nosso conforto, talvez sequer conseguiríamos sobreviver. Afinal, não sabemos mais construir o que nos oferece o parâmetro de conforto ao qual nos acostumamos; na verdade nem mesmo nos lembramo o que outrora se sabia acerca de como conseguir sobreviver sem esse conforto todo.

O conforto é uma coisa perigosa… por mais abrasivo que seja o mundo a nossa volta, por mais que o ar condicionado, o ventilador, o aquecedor ou o automóvel nos protejam da realidade, proteger-se da realidade é - sob muitos aspectos - se afastar dela.

De diversas formas, afastar-se da realidade através da Tecnologia - a qual se tem acesso graças a quantidade de dinheiro que se tem - é se distanciar da realidade de que não são 170 milhões de brasileiros que tem acesso a mesma Tecnologia… muito menos as 6 bilhões de pessoas do planeta.

“Mas vamos lá” - diriam alguns colegas meus - “De novo, sem demagogia!”.

E ainda assim, o conforto é uma coisa perigosa… André Gregory conta que sua mãe conhecia uma das mulheres mais ricas do mundo, uma tal Lady Hatfield, que não gostava de nada além de frango. Por puro conforto ela passou, portanto, a comer apenas frango. Pois bem, segundo André Gregory ela morreu de inanição graças ao fato de, embora seu corpo estar faminto por nutrientes, ela estar ocupada demais sendo feliz ao comer apenas frango.

Verdade ou não, é uma bela alegoria da questão levantada por esses acadêmicos.

A Tecnologia vêm nos oferecendo cada vez mais, cada vez com mais eficiência e, no processo, influenciando nossos valores e o valor que damos para as coisas. Não precisamos ouvir música ao vivo, basta tocar um mp3; não precisamos de frutas para fazer um suco, basta comprar de caixinha; não precisamos ler livros, basta ler o resumo na internet; não precisamos questionar a existência ou não de um Deus, basta escolher se vai acreditar ou não.

Os valores que fomos adquirindo, graças a nos acostumarmos com o conforto que pode ser proporcionado pela Tecnologia e suas conseqüências, nos fez perverter nossos valores para uma condição de viver para o prazer, viver para conseguir mais conforto, viver para adquirir mais Tecnologia.

Valores outrora promovidos pela Igreja Católica e diversas outras religiões do mundo foram sendo convenientemente chamados de radicais e colocados em segundo plano. A moral secular - aquela passada de pais não religiosos para seus filhos - sofreu da mesma forma, tendo de se adaptar aos novos tempos.

A Ciência não só havia dado a luz à grande parte do que hoje entendemos por Tecnologia, mas se emparelhava com os novos valores orientados à eficiência e a noção cartesiana de que a soma das Partes é Igual ao Todo. A escolha mais natural estava feita para a civilização, cada vez mais globalizada através da Tecnologia da Comunicação de Massa: o “Cânone Científico”.

Diferente do exercício da Filosofia – responsável por seu nascimento e pelo nascimento de diversas outras escolas filosóficas – a Ciência era capaz de observar o Universo através de uma janela mais estreita, construída a partir de “materiais” mas palpáveis e de mais fácil compreensão… dando ao Homem a idéia de que ele só precisava acreditar na existência do que era detectável e quantificável, sem sequer ter de ponderar para além do que havia sido decidido que não existia ou que provavelmente não existia.

Uma visão dura acerca da Ciência? Uma visão falaciosa da Tecnologia? Talvez… mas ainda assim um conjunto de questionamentos que vêm cozinhando há muito tempo nos meios acadêmicos.

Não se trata de achar que a Ciência e a Tecnologia são nocivas e devem ser esquecidas, mas de perceber que ferramentas devem ser usadas de acordo com os requisitos do trabalho a ser empreendido. E é trabalho tanto da Comunidade Científica quanto de outras instituições, descobrir os limites da Ciência.

É preciso pensar sobretudo, acerca das questões morais, éticas e dos impactos sociais impostos pelos caminhos oferecidos e empreendidos pela Tecnologia.

O que está sendo apontado, afinal, é que o Homem descobriu ter um problema hormonal e que esta é a causa de sua obesidade. O que ele faz? Uma operação de estômago, resolvendo assim sua obesidade e permanecendo com o problema hormonal, cujas repercussões são menos óbvias, mas persistem.

Será este o mundo que queremos para nós?

Ao longo de todo o texto, Jessica Rabbit, atraente e sensual, acompanhou a sua leitura, entretanto sua presença fez pouco mais que desviar sua atenção e até confundí-lo um pouco. Quem viu um sentido, parabéns. Até o momento eu não havia pensado nisso.

Ela bem poderia, contudo, ser uma alegoria do conforto que a Tecnologia nos oferece, a despeito de ser pouco mais que um reflexo da imaginação humana e guardar menos relação do que se pode imaginar, com o que está a sua volta. Em suma… um mero sintoma.

Dito isso, quem chegou até aqui talvez tenha percebido que o escrevi de forma mais coloquial que de costume, concentrando-me em prender mais a atenção do leitor médio e convidando-o muito mais a entender cada um dos parágrafos, sem a necessidade de refletir muito acerca deles, ainda que se trate de um assunto difícil e controverso.

No meu entender, um texto é um texto tanto quanto um quadro é um quadro, e há obras que atendem a uma quantidade maior de pessoas e outras que afugentam àqueles que procuram o que é mais óbvio e mais fácil.

Meu texto tem propostas intrínsecas a serem identificadas ou ignoradas, a meu ver, o rebuscar das palavras enriquece a cultura do leitor, pede maior reflexão no durar da leitura e faz uso de palavras que condensam conceitos sofisticados que merecem a pesquisa individual.

Venho até sendo criticado por algumas pessoas pela forma que dou ao meu discurso e , embora até tenha muito a dizer acerca do assunto, creio que os parágrafos acima dizem tudo:

Parece-me que querer o caminho mais fácil e mais confortável pode ser parte do problema…

…e não parte da solução.

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Fev 12

Em mais um presunçoso debate acerca do Homem, do mundo e das coisas, eu, Cristiano Dias e Eduardo Gouveia, passeávamos por Tecnologia, Ciência, Filosofia e tudo mais sobre o que o construímos nossa realidade…

Foi à forma determinista pela qual abraçamos um ou outro aspecto desta disciplina que chamei de “remendos na barragem”… um comportamento que me parece crônico nos dia de hoje, em que não costumamos questionar as premissas do que fazemos, seguindo na construção de coisas por sobre fundamentos crescentemente duvidosos.

Minha preocupação não é meramente prática. Não me importa tanto se as coisas “poderiam ser piores”, mas se as coisas poderiam ser melhores!

Entendo o questionamento como uma atividade legitimada em si mesma e a reflexão pura como algo que não deve ser desqualificado de ante-mão, sob o preço de reduzirmos questões a meros resultados práticos de curto e médio prazo.

Cristiano Dias levantou o fato de que, historicamente, uma espécie de Darwinismo Social – uma hipotética curva antropológica – forçasse o Homem a evoluir sempre a passos pequenos, até um momento de ruptura, quando uma nova realidade se sobrepõe a anterior.

Trata-se de uma magnificamente elaborada racionalização em cima de algo que de fato ocorreu e vem ocorrendo ao longo de toda a história humana e, talvez, a melhor forma que eu já tenha visto de se dizer: “É a Natureza Humana… o que se há de fazer?”

O mérito da teoria é inequívoca, como o mérito do próprio Darwinismo, do Lamarquismo e (por que não dizer?) do Criacionismo – e aqui, provavelmente, só os Protestantes e Evangélicos iriam concordar.

Parece-me haver estreita relação entre nossa insegurança em não ter controle sobre as coisas, as pessoas e os acontecimentos e nossa obsessão em conseguir respostas, no lugar de continuamente investigar a VerdadeAqui expressa como a diferença entre a realidade que é percebida pelo Homem e o Real, que talvez exista para além da percepção do Homem..

Esta insegurança e obsessão por controle me parece impelir-nos a, após fazer sensoAqui colocado no sentido de teorizar explicações em cima de evidências empiricamente coletadas ou intuídas. das coisas, independente da qualidade das evidências em favor de nossas impressões, concentramo-nos em perpetuar, a todo custo, tais opiniões, construindo castelos de novas opiniões cada vez mais altos sobre estes alicerces de confiabilidade duvidosa.

Seguindo esta linha de raciocínio, procuramos algo que justifique a realidade percebida, segundo nossos termos, para então defender esta justificativa com unhas e dentes, tentando identificar uma ponderabilidade que talvez sequer exista.

No processo, acabamos não questionando nossos conceitos – ou preconceitos – preferindo as nossas confortáveis justificativas à trabalhosa busca por respostas alternativas.

Antes que, novamente, alguém puxe a carta da “Natureza Humana” para justificar tal comportamento e ir de encontro ao que coloquei na mesa, vale perguntarmo-nos se isso não é um reflexo do nosso tempo, de nossos meios de produção e da forma que demos a nossa civilização – entendendo aí, possivelmente, até 3000 anos de evolução ocidental.

Vivemos em um mundo onde as pessoas têm pouco ou nenhum tempo para o crescimento pessoal, para o questionamento moral ou aquisição de conhecimento; um mundo onde a formação acadêmica e profissional é altamente especializada e orientada à resultados, à eficiência e à objetividade; um mundo onde cada indivíduo tem formação tão diversa da de seus semelhantes que sequer é capaz de compreender o que fazem, o que os move e o porquê de pensarem de determinada forma.

Há ainda uma profunda estratificação cultural e social, uma preocupante concentração de renda e uma conseqüente indiferença com os porquês do que ocorre em lugares diferentes daqueles em que se vive.

Somando essa realidade à noção de que a GlobalizaçãoEm Política: Política nacional que vê no mundo inteiro uma esfera propícia de influência política; internacionalismo, imperialismo (Houaiss) e a Convergência CulturalTendência para aproximação cultural do indivíduo, grupo ou povo para fins comuns ou não, se adaptando a uma cultura predominante ou às culturas envolvidas retirando traços significativos – sejam eles lingüísticos, artísticos, ideológicos etc. é intrinsecamente benéfica, se não necessária, um pesadelo OrwellianoRefere-se a George Orwell – autor de “1984”. se descortina.

Só pensamos no futuro impelidos pela necessidade de adquirir melhores resultados, com a maior eficiência possível, com um tempo para reflexão tão menor quanto conseguirmos, sacrificando a qualidade de nossas decisões.

Olhando para trás, então, identificamos decisões de qualidade, na melhor das hipóteses, sofríveis, sem jamais questionar as premissas que nos levaram a conseguir tão lamentável resultado, até porque não devemos gastar nosso precioso tempo com o que já passou.

O controle foi perdido no momento em que nos comprometemos, a todo custo, com tais premissas, entretanto nos agarramos a este cânonePor extensão de sentido: Maneira de agir; modelo, padrão. sócio-cultural como nos agarramos às tais respostas às quais chegamos de forma tão leviana. E tudo isso para não perdermos um controle que nunca tivemos.

É uma relação neurótica com um construtoConstrução puramente mental, criada a partir de elementos mais simples, para ser parte de uma teoria. frágil, que evoluiu em cima de um alicerce comprometido ao longo do tempo que permitimos que evoluísse.

Tentamos defender nosso modus vivendiModo de viver, de conviver, de sobreviver. a todo momento, como alguém recém desperto de um sonho bom e que passa feliz o resto do dia sem bem saber o porquê… ou como um animal de corte, feliz por comer uma farta refeição, ignorante da morte iminente.

”A lei da natureza era o Caos: O Homem sonhou com a Ordem”, disse o historiador americano Henry Brooks Adams (1838-1918), e talvez isso ajude a elucidar a essência do questionamento proposto.

Criamos insistentemente racionalizações elaboradas para justificar nossos defeitos e os defeitos de nossos pequenos modelos. Douramos a pílula amarga pela qual somos responsáveis e fazemos isso não apenas para justificarmo-nos diante dos outros, mas diante de nós mesmos.

Todas as teorias, filosofias e ciências são exemplos clássicos desta necessidade humana em fazer senso do Universo. O que bem pode ser nossa maior qualidade pode igualmente ser nosso maior defeito, se insistirmos defender quaisquer destes cânones de forma absoluta, em detrimento do direito a Não Saber e Continuar Tentando.

A diversidade, em suma, não precisa existir apenas no âmbito social - através da diferença ou divergência entre indivíduos - mas também pode ser expressa na tolerância individual para com os demais cânones.

Mais que tolerância, a busca de um entendimento pode ser conseguida através do questionamento constante das próprias premissas, do questionamento sistemático do alicerce dos castelos que construímos em redor de nós mesmos.

O Sol, visto das janelas de outros castelos, erigidos sobre diferentes fundações, têm uma beleza própria. Aprender a bater nos portões sem tentar colocá-los abaixo pode ser um exercício edificante por si só.

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Dez 08

Outro dia, um amigo do trabalho – o José Vasconcelos – colocou um comentário em um texto meu aqui do 5arcásmos |v|últiplos.

Em “Tutto nel mundo e Burla” comentei a capacidade de algumas pessoas – por chatice, genialidade ou loucura – de identificar sub-textos na realidade a sua volta e transformá-los em obras magníficas, comentários mordazes ou mesmo piadas aparentemente descartáveis que guardam mais relação com a “natureza das coisas” do que gostaríamos que guardassem.

O comentário se referia a uma piada: um homem vai ao médico dizendo estar deprimido. Ele se lamenta afirmando que a vida é dura e cruel, que sente-se só e ameaçado em um mundo onde o que está adiante é vago e incerto. O médico, confiante, retruca que “O tratamento é simples. O grande palhaço Pagliacci estará na cidade esta noite. Vá assisti-lo! Isto com certeza vai fazê-lo sentir-se melhor”. O pobre homem cai em prantos… “Mas, Doutor… Eu sou Pagliacci.”.

É uma boa piada, todo mundo ri, ouve-se o rufar dos tambores e fecham-se as cortinas… será?

No fim de semana passado vi um ótimo filme, que eu havia visto algum tempo atrás, gostado, mas que sabia ter deixado passar alguma coisa. Não sabia bem o que, mas havia deixado passar.

O filme se chama “O Psicopata Americano”, estrelado por Christian Bale que, descrevendo superficialmente, é um bem sucedido yuppie que “trabalha” em Wall Street em uma empresa fundada por seu pai.

Vivendo uma vida superficial de futilidades e preocupações sem qualquer relação com as divididas pelo resto do mundo, o personagem nos mostra uma rotina completamente alienada do universo que todos conhecemos (cada um a sua maneira).

Em dado momento, o personagem começa a verter sua não-relação com o mundo através de atos para todos nós tidos como vis e cruéis. Na tela, um banho de sangue, morte, violência e humilhação desfila em suas mais diversas formas, vitimando desconhecidos, colegas e amigos do personagem.

Perseguido pelo desejo de continuar a saga de crueldade, acentuando a diferença que existe, ou que ele deseja que exista, entre ele e seu meio, o personagem vê-se também “assombrado” por um detetive de comportamento e percepção absolutamente inverossímeis.

Apesar de sua idéia de si mesmo e da idéia que faz de sua descontextualização de seu entorno, o personagem é um entusiasta e conhecedor de compositores, bandas e cantores da década de oitenta, como Phil Collins e Whitney Huston, sobre os quais discorre enquanto comete seus crimes.

Uma vez que pretendo instigar o leitor a ver o filme, não vou falar ainda mais a respeito de seu enredo, entretanto posso dizer que, desta vez, o número de elementos em jogo que identifiquei foi de fato muito maior que havia notado anteriormente.

Percebi uma relação sombria, um subtexto soturno, que apontava para o significado intrínseco de nutrir e perpetuar um sistema capaz de gerar tamanha diferença entre os indivíduos, capaz de elevar um grupo tão reduzido até os estertores da indecência e da imoralidade através do dinheiro e do poder.

O personagem vivido por Christian Bale é mais que alguém doente; ele é uma metáfora daquilo no que o extremo de poder pode tornar um indivíduo, um grupo ou uma nação. A noção de que o direito de uns acaba onde começa o direito de outros fica comprometida em uma sociedade onde os direitos não são iguais e onde um indivíduo, grupo ou nação acabam por poder cometer qualquer atitude impunemente.

O subtexto está em todo o lugar pois o subtexto está na mente de quem o identificou. Por vezes quem o identificou percebeu algo que o autor desejava insinuar, entretanto o valor em se identificar, em uma obra, algo que de fato não foi intencional, pode ser enorme.

Cada espectador recria uma ou mais obras a partir daquilo que interpretou do que de fato experimentou. Deixar de lado o que se interpreta ou o que se deduz, a meu ver, é um grande erro – sobretudo se temos condição de lembrarmo-nos que o que identificamos não é senão uma conjectura preciosa.

Coincidentemente, ao ver os extras, pude ter conhecimento do fato de que o livro, do qual foi feito o filme, foi considerado, à época, uma paródia mordaz do sonho americano e das conseqüências que são impostas aos demais para que este sonho prevaleça.

A diretora Mary Harron sustenta que extraiu do texto uma noção menos taciturna, atendo-se a outros aspectos da obra e deixando menos expresso um conjunto que, no livro, se torna mais óbvio.

Não é difícil concluir que até mesmo a identidade de um indivíduo, tão alienado de seu meio e de sua noção de eu, fica profundamente comprometida. Fica fácil imaginar que tamanha supremacia torna o indivíduo incapaz de importar-se com questões que aflijam a quaisquer pessoas que não tenham relação com seus próprios interesses.

No fim, o que aflige tal sorte de indivíduo, grupo ou nação, é sequer compreender as próprias motivações e os motivos pelos quais são odiados e incompreendidos. Além do alcance de qualquer forma de resgate, tal sorte de indivíduo é a única chance de si mesmo e, se não encontrar uma forma de prestar-se o devido socorro, vai sucumbir diante da própria alienação.

Outrora, parábolas foram profundamente importantes para nós e, em um mundo onde as novas-fábulas perpetuam uma aridez de subtextos, onde a precisão na passagem da mensagem parece ter tomado o lugar da profundidade temática e da riqueza de interpretações, gastar tempo em interpretar passou a ser sinônimo de entender errado.

Alienamo-nos de nosso potencial humano e subjetivo emulando estruturas intrinsecamente objetivas somente existentes nas máquinas que nós mesmos idealizamos. Valoramos a aderência a metodologias rígidas e a um pragmatismo absoluto como se houvesse apenas um meio de ser objetivo e, no final, perdemos nossa identidade como seres humanos.

Você pode discordar ou concordar com este texto, não me importo. No final, os palhaços somos nós, e a piada de mau gosto em que se transformou a sociedade em que vivemos é um subtexto a ser identificado… e sequer o fazemos.

Parece-me que cabe a nós perceber que nosso tratamento é simples, que alguém chegou por estas paragens e que pode nos ajudar… e que este alguém somos nós mesmos.

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