Antes de tudo, este é um texto que não necessariamente tem um objetivo definido e, portanto, serve mais como material de reflexão do que para qualquer outra coisa.
Lembro-me de estar no estacionamento da PUC-Rio, no carro do Cris Dias, com o CD-ROM da revista “Neo Interativa” – uma antiga “Revista Multimedia” – nas mãos quando ele se virou para mim e disse: “Cadê o papel?”, se referindo ao papel do estacionamento. Eu respondi: “O papel morreu, longa vida ao papel eletrônico”.
Cristiano olhou de soslaio para a “revista interativa” em minhas mãos e deu o bom e velho sorriso inteligente pelo qual hoje é tão conhecido e disse: “Cadê o CD-ROM?”. E era verdade… O CD-ROM havia morrido também. Longa vida à Internet!
Mais tarde naquele mesmo dia estava eu conversando com Alexandre Maron – que ainda não havia deixado a faculdade de Análise de Sistemas para abraçar a de Jornalismo – e, sobre o assunto, ele disse: “Na melhor das hipóteses, no final, nós é que estaremos certos”…
É preciso que eu situe você na realidade que vivíamos: era 1993, a Internet ainda não existia no país, eu me juntara ao Cristiano para a criação de um BBS (Bulleting Board System) que permitiria acesso das pessoas a uma coisa relativamente nova chamada e-mail e, para quem não tinha modem em casa, faríamos um serviço de BBS Off-line, levando e trazendo disquetes de 5″1/4 com os e-mails de quem não tinha Modem em casa.
Ouvir este tipo de coisa, a respeito do Brasil de quase 20 anos atrás, é ficar mais próximo do Deserto do Real.
Muito mudou em 20 anos…
Quando Alexandre Maron falou que “Na melhor das hipóteses, no final, nós é que estaremos certos” ele estava falando de nós mesmos e de todos os escritores de Ficção Científica cujos livros e contos nós então devorávamos para produzirmos horas e horas de divertimento Nerd na forma de aventuras de RPG.
Desde antes da universidade, eu, Alexandre Maron, Cristiano Dias, Angelo Braga, Anna Paula Maron, Raquel Braga, André Marroig, Eduardo Rocha, Creso Marcelo, Fábio Nogueira e alguns outros jogadores ocasionais jogamos mais de cento e cinquenta aventuras de RPG em um arco de história que se estendeu por 5 anos e que envolvia mais de 400 personagens catalogados e com fotos.
Em meio aos mais de cento e cinquenta roteiros de RPG que eu e Alexandre Maron desenvolvemos e discutimos com Cristiano Dias, acabamos ficcionalmente repensando e reinventando o jornalismo, a comunicação e o futuro do papel (ver “Sistema: Sol – Crônicas”).
Falamos do Plastipel, um tipo de papel reciclável sintético, que seria comum a documentos corporativos até 2090; tergiversamos muito sobre a convergência de mídias de transporte e sobre padrões físicos de conexão destas mídias; brincamos com a idéia da revista e jornais em telas flexíveis no formato tradicional de revistas e jornais; saltamos dos walkie-talkies direto para os óculos de MixR (como chamávamos os comunicadores de Realidade Aumentada que inventamos) sem mesmo passar pelos celulares, coisa que não existia em nossa época; criamos do zero todo um paradigma de Inteligência Artificial e Realidade Virtual, tudo profundamente enraizado na forma como a comunicação funcionaria no fim do Século XXI e início do Século XXII.
Criamos juntos um futuro meio utópico e meio distópico, cheio de problemas e de soluções, profetizando uma Europa Unificada (a PanEuropa), a unificação cultural das américas (E.U.As.), a Globalização e curiosos blocos internacionais como os Países-Estados Associados da África (P.E.A.A.) e uma União das Repúblicas Soviéticas Capitalistas (U.R.S.C.) – que jamais aconteceram.
E o saldo foi bastante positivo, na verdade… Além do exercício intelectual de pensar o futuro, todo o tempo gasto em repensar o presente para construir um amanhã mais interessante acabou moldando-nos para o que viria.
Cris Dias, hoje, é uma notória referênca nas áreas de Tecnologia, Marketing e tudo que há de mais sofisticado em termos de Internet – isso tudo sem contar que foi o dono do Vilago (comprado pelo Hostgator), do Enxame.tv e de uma filha linda chamada Clara, que teve com a Anna Paula Maron.
Alexandre Maron foi editor da Monet, da Época e é responsável hoje por projetos de Mídia Digital – isso tudo sem falar seu talento para a literatura de ficção científica, do RadarPop e do revolucionário conceito de Play Factor, que desenvolveu fora do país.
Eu, Bruno Accioly trabalho com desenvolvimento de projetos de Comunicação e Mídia Digital na dotWeb, particularmente me concentrando na implementação e implantação de redes sociais e ferramentas para gestão de conteúdo para mídia alternativa – sem falar de ter fundado o Conselho SteamPunk, a Rede Social de Literatura Fantástica aoLimiar e ser editor do OutraCoisa.
Pensar o Futuro e Fazer o Futuro são duas coisas diferentes. Pensar o Futuro é um misto de inteligência, criatividade, medos e desejos; enquanto Fazer o Futuro é trabalhar no presente no sentido de construir o sucesso de novidades que nos permitam ter a segurança para continuar fazendo isso.
Para mim e para os meus amigos mais próximos o futuro é exatamente o que era antigamente: Surpreendentemente próximo do que imaginamos!
Alexandre Maron mencionou, recentemente: “Meu receio é ver tudo aquilo que imaginamos finalmente implementado. E aí? Acabou?”
Tentamos manter a mente jovem, criativa, produzindo e ao mesmo tempo temos de sobreviver, nem sempre podendo abraçar os projetos que de fato gostaríamos de colocar em primeiro lugar.
Há um limite. Não sei quão além de 70 anos eu ou qualquer um de nós vai, mas daqui até lá ainda há tempo.
Enfim… se antigamente eu tinha mais tempo para Pensar o Futuro, no presente eu tenho muito mais tempo para Fazer o Futuro, inventar o amanhã um dia de cada vez!
Os dias estão contados, para os olhos revirando quando Hollywood mostra personagens, em filmes, fazendo absurdos tratamentos em imagens de computador.

Lembro de Jorge Luiz Calife – que escrevia para a coluna científica do Globo – falando que era um total absurdo anti-científico a roupa do Predador, no filme da Fox. Ele via assim a questão porque não conseguiu conceber outra forma de criar um traje daquele tipo a não ser tornando-o capaz de curvar a luz em torno do objeto, o que gastaria uma proibitiva quantidade de energia para gerar um monstruoso campo magnético.
Já naquela época eu e o Maron nos perguntávamos se não “bastaria” uma tecnologia que exibisse de um lado do traje aquilo que fosse captado do lado diametralmente oposto do traje… e é assim que alguns projetos militares pretendem escapar de precisar curvar a luz.
É um erro e tanto impor limites científicos a questões que se resolvem no âmbito da engenharia. A tecnologia suficientemente avançada parece mágica para quem detém menos tecnologia justamente por isso. Porque quem detém menos tecnologia desconhece o processo utilizado.
Eu mesmo sempre fui muito cético quanto ao tratamento de imagens automático, ampliação de fotos para tamanhos superiores ao de fotos originais e manipulação tridimensional de fotos bidimensionais, mas os vídeos abaixo dão uma idéia de quão avançadas estão as pesquisas que usam de avaliação preditiva, extrapolação ponderada e, enfim, matemática, para modificar, com um mínimo de intervenção humana, imagens fotográficas simples.
Tridimensionalização de Imagem
Os algoritmos desenvolvidos na Universidade Carnegie Mellon garantem a tridimensionalização automática de imagens, baseada na análise por computador de linhas de contraste depuradas a partir da imagem original. A navegação pela imagem em 3D é possível dentro dos limites da informação encontrada pela máquina.
Redimensionamento por Magnitude de Importância
A tecnologia abaixo garantiria não só a alteração de imagens, mas comunicação digital via diferentes dispositivos sem perdas na diagramação e aproveitando o potencial de cada dispositivo. Relógios com telas minúsculas poderiam se beneficiar tanto desta tecnologia quanto telas WideScreen.
Chronotopic Anamorphosis (Atualização)
Desenvolvido por Arlindo Machado, o programa responsável pelas imagens abaixo funciona através da fragmentação da imagem em linhas horizontais, distribuindo-as em diferentes quadros. Baseado no livro “The Fourth Dimension”, de Zbigniew Rybczynski, o software distorce as imagens em tempo real e não depois de um pós-processamento.
Fico me perguntando em quanto até o momento nos fiamos na imagem, naquilo que percebemos e como futuras gerações vão se relacionar com a imagem no futuro, sem poder se fiar nas imagens como um referencial sólido e confiável.
Ainda que tenhamos, hoje, inúmeras publicações e material alvo de retoque fotográfico via PhotoShop, um futuro onde uma imagem apresentada numa tela foi automaticamente gerada por computador, é um mundo todo novo. A foto que se está vendo jamais foi tirada de fato e nossa referência, a imagem, pode ter sido modificada de forma muito mais radical do que é possível hoje, atendendo interesses dos mais diversos.
Será que a condição de não mais ser capaz de se fiar na imagem vai mudar o homem de alguma forma? Será que nossa visão do mundo vai mudar muito, sobretudo já que é da natureza da visão perceber justamente a imagem que não mais é leal aos fatos? Se não só as imagens publicadas digitalmente, mas as impressas e as projetadas não forem mais fiéia, como o Homem passará a perceber o mundo?
É inevitável esse futuro de “insanidade” virtual e ele demanda uma Ética totalmente diversa na produção e distribuição de subjetividade…
…O futuro é, basicamente, um Admirável Mundo Novo!