“Ai, que texto longo!”, “Não entendi nada!”, “Você gosta de escrever, né?”, “Por que você escreve esquisito assim?”, “Dava pra cortar isso aí pela metade!”, “Por que você não troca ‘acerca’ por ‘sobre’?”, “Seu texto é um auto-elogio só!”, “Eu só gosto de ver as figuras no seu Blog”… é o que eu escuto ou leio semanalmente sobre o conteúdo e a forma do que eu escrevo. Adivinhem – ninguém está errado! – mas discordo dos comentários sob um ou outro aspecto.
“Brutal”, foi a primeira palavra proferida por George Orwell, quando bebê, ou assim nos fez acreditar sua mãe, que eternizou a lenda.
Orwell escreveu “1984”, livro que descreve uma sociedade totalitária que anula o indivíduo, valoriza a coletividade em nome da produção e, sobretudo, em que os fins justificam os meios e a mentira é uma preciosa ferramenta do Estado.
Em seu livro, e mesmo no filme de mesmo nome, Orwell sugere, de forma um tanto velada, que a destruição da língua tem papel importante na sedimentação de um Estado policial totalitário, um governo de exceção.
Na obra, contrações lingüísticas, fusões de palavras, inversões de conceitos, são lugar comum e lindamente costurados com a falta de significado e a distorção do sentido íntimo de tudo o que é dito.
A primeira palavra de Orwell bem poderia ser usada para descrever como desconstruímos nossa história e identidade ao destruirmos a língua… É brutal!
Há quem não se preocupe tanto com isso e ache até muito bom que a língua esteja convergindo para algo mais conciso e eficiente, mais objetivo e pragmático. Sob certos aspectos é, de fato, muito interessante, produtivo e tudo mais, mas é também um empobrecimento da cultura e de nós mesmos.
Desde a revolução industrial, a sociedade vem descrevendo uma curva ascendente em direção à uma maior produtividade, à uma maior eficiência, mesmo que em detrimento da qualidade e da durabilidade. A não sustentabilidade dos meios de produção e dos produtos em si mesmos nem se cogita na lista de prioridades corporativas.
Para alcançar taxas de produção tão elevadas e para garantir a lucratividade torna-se necessário o entendimento do processo produtivo em termos não de homem/hora, mas de homem/centésimo-de-segundo. É preciso criar metodologias cada vez mais elaboradas para alcançar as taxas alvo a despeito do Homem, embora seja ele quem efetivamente trabalha. Entende-se o Homem, nesta realidade, como uma peça em uma máquina e se esquece que é ele um Ser Humano.
Mesmo que este pareça um discurso datado, fica bastante claro que o discurso é atual quando se percebe que é lugar comum uma fábrica sair de seu país de origem para operar com mão de obra mais barata em países em desenvolvimento, deixando inúmeras famílias sem fonte de renda.
Este “industrialismo” teve profundo impacto na forma que o Homem vê o mundo e em sua forma de pensar e agir, viciando-o em conceitos que só parecem verdadeiros graças à realidade na qual foi imerso.
Na Idade Média, a pintura não conhecia a perspectiva, ou melhor, manifestava nas telas inúmeras perspectivas… essencialmente estavam presentes diversos pontos de fuga – conceito que viria posteriormente.
Da geometria projetiva e da Arquitetura veio o conceito de ponto de fuga, que dá ao espectador a impressão de estar dentro do quadro, respeitando a perspectiva qual se estivesse vendo os elementos do quadro como se existissem em um espaço tridimensional.
Por outro lado, o advento do ponto de fuga não mais dá uma multiplicidade de visões, de perspectivas, viciando o espectador no próprio ponto de vista e coincidindo com as tendências mais individualistas descortinadas pelo progresso.
O ponto de fuga pode ser lido como a asserção da própria perspectiva, o encontro consigo mesmo e até a valorização do indivíduo, entretanto afasta o indivíduo da diversidade de visões, da busca de visões estranhas à sua e mesmo a aversão a tudo o que é discordante com a própria opinião.
Em um mundo orientado à produção, o trabalho precisa ser valorizado e moderadamente recompensado, os cidadãos têm de estar imbuídos de valores que o incentivem a trabalhar e deve-se desqualificar quaisquer questionamentos em sentido contrário ou que entrem em conflito com os interesses “produtivos”.
Estando a eficiência a frente da eficácia e da efetividade, perde-se a necessidade da qualidade e da sensatez, focalizando os esforços sociais no sentido de um Objetivismo e Pragmatismo desmedidos que só permitem a análise da realidade através da conclusão de objetivos e só permitem o entendimento do movimento tendo algo previamente eleito como objetivo.
Invariavelmente, em vista de ter-se descartado a qualidade e a sensatez, há que se acobertar tais impropriedades de algum modo. Isto pode ser feito através da criação de órgãos destinados a endossar o cumprimento de boas práticas, elencadas em metodologias que, se seguidas, não permitirão – por sua própria natureza – atingir a tão preciosa lucratividade.
Para garantir a aderência a esse padrão de qualidade fictício sem provocar quedas de produção, os órgãos exigem que a corporação tenha um percentual de seu contingente treinado nesta metodologia e assumem que as tais boas práticas, dado o treinamento do pessoal, sejam levadas à cabo. Eis o conceito de certificação.
O quadro belíssimo leva então a cobertura essencial do discurso vazio, empreendido por profissionais de Administração, Vendas e mesmo Cientistas Políticos, que destilam sofismas, palavras da moda e frases feitas, tão emblemáticas quanto incoerentes, que defendem ora um ora outro ponto de vista, quase sempre conflitantes.
A imersão opera milagres…
Joseph Goebbels, Ministro da Propaganda no 3º Reich, eternizou aforismos importantíssimos no entendimento da anatomia de um Estado totalitário, afirmando que “quanto maior a mentira, maior a credulidade”, que esta forma de governo “não busca a verdade, mas o efeito por ela produzido” e que “o objetivo do sistema é que até a desobediência se torne uma forma de obediência”.
A busca de um ponto de fuga único e orientado ao espectador é o ponto pelo qual o espectador foge da realidade, confiando demais em sua própria visão de mundo para tolerar ou considerar os demais pontos de vista, entendendo como Natureza Humana a condição de não questionar nada e sentindo-se afiançado na posição de acreditar-se fundamentalmente certo.
Hoje, graças aos caminhos que resolvemos percorrer, temos um dicionário rico em verbetes com dez, vinte, cinqüenta acepções e, entretanto, cada indivíduo escolhe fazer uma média das “n” acepções ali descritas e concluir uma única acepção para conceitos complexos como “Questionar”, “Moral”, “Ética”, “Objetivo”, “Abstração”.
Os protocolos de comunicação ruem diante desta brutalidade ideológica de relativização dos significados, não permitindo que duas pessoas se compreendam pois elas não mais conseguem pensar em dez, vinte, cinqüenta acepções para cada uma das palavras que adotam em seu vernáculo, ao invés disso sustentando pontos de vista que se fundamentam no significado que escolheram para as palavras que usam.
A generalização e relativização da língua e a re-significação auto-indulgente de conceitos, são reflexos de nosso desrespeito por qualquer outro ponto de vista e pelo descaso quanto ao sentido íntimo das coisas.
A noção de que “tudo é relativo” é uma generalização tosca, mais uma média “estatística” intuitiva que se tira sem base alguma e meramente para afiançarmos as certezas equivocadas que gostamos de ter.
“Palavras difíceis” são corriqueiramente descartadas, com a impaciência destas pessoas preguiçosas nas quais nos tornamos, e é isso que vai nortear a confecção de textos jornalísticos e obras literárias, levando a língua e a cultura em uma espiral descendente em direção à mediocridade à qual só a média e o relativismo exacerbado tem condições de nos levar.
Destituídos de significado não só os discursos, mas cada um de nós se torna vazio e sem substância. Não há mais protocolo de comunicação possível se decidimos que cada um pode reinventar a língua a seu bel prazer.
Logomaquia é o nome que se dá para discussões geradas por diferentes interpretações acerca do sentido de uma palavra; o emprego de termos não definidos em um discurso ou argumentação; e a querela em torno de coisas insignificantes.
Em que contexto esta palavra se encaixa neste texto cada leitor escolhe, dependendo de suas interpretações do que leram e de forma bastante independente da minha intenção como autor. O que jamais deve ser esquecido é que há mais de uma acepção. Não abra mão dos múltiplos significados das coisas!
Vale refletir acerca da forma que nos relacionamos com nosso entorno e, como escreveu David Reisman: “Faça um apanhado das frases com as quais concorda e questione-as!”
Se uma casca do que um dia fomos é só o que nos resta ser no futuro, só vai valer a pena abrirmos a boca mesmo é para bocejar…

Um Macbeth interrompido, nos palcos do teatro, é pretexto para que Antônio Fagundes vire a mesa, denunciando o público sem pena enquanto conta um pouco da história do teatro, da realidade da televisão e da tristeza cabe nos sete minutos que nos restam.
Foi escrito certa vez – e repetido milhões de vezes – que “a vida é uma sombra que passa, uma história idiota, cheia de som e de fúria, contada por um louco… significando… nada!”
Insuspespeito, nas prateleiras da Blockbuster mais próxima de você, está um filme brasileiro que denuncia o problema que é a capacidade do novo espectador, derrubando a suposta quarta parede que existe entre o ator de teatro e aquele que o assiste. O filme, sem deixar de tentar investir contra o muro que se contruiu, faz troça do “jeito que as coisas são” para que o espectador veja na arte mais que entretenimento.
“Sete Minutos”, em um texto inicialmente leve e cômico passa, quase que desapercebido, pelo fato de que desde pequenos somos programados para engolir o que nos torna os consumidores ideais.
O protesto externado no monólogo magnífico e acusativo de Antônio Fagundes – que pode até ser óbvio para muitos mas nunca deve deixar de ser exaltado em praça pública – finca os dentes da verdade na carne do cinismo e da apatia que cobre este corpo que se larga na cadeira diante das TVs a Cabo da vida.
Comprei o DVD sem mesmo pensar muito a respeito – pois gosto muito de surpresas – mas, para os que gostam de mais certezas na vida, recomendo o aluguel.
Se fosse apenas pelo monólogo já valeria a pena, mas não é. Numa linguagem aparentemente “Sai de Baixo”, desde o início, a peça filmada acaba por peregrinar pelo terreno da crítica com desenvoltura e charme.
“É verdade, nós vivemos em um país desacostumado ao ato de pensar.
Nossa formação cultural está reduzida àquela dúzia de filmes americanos com sua fantástica linguagem traduzida em ação.
Nosso padrão de televisão, esperto, ágil e dinâmico, prende nossa atenção por, no máximo, sete minutos! O tempo aproximado de cada segmento, antes do intervalo comercial.”
“Sete Minutos”
Escrito por Antônio Fagundes
Dirigido por Bibi Ferreira
Novidade deliciosa para mim, a casa foi inaugurada em fins de 2004, em um dos bairros de nascimento do samba, e transborda de charme do início ao fim da noite.
Com pé direito altíssimo e internamente devassado, ao entrar a gente se sente engolido por um outro mundo, uma espécie de micro-cidade cenográfica que lembra uma Santa Tereza embelezada, um cortiço festivo ou uma qualquer-coisa bela que tira o chão da gente.
Regados à Dom Cândido (R$ 24,00), tivemos a oportunidade de ouvir a performance do Gafieira da Lua – com Eduardo Galloti – que nunca deixa a desejar.
O charme do lugar fica ainda mais acentuado pela beleza das moças que, simpaticamente, são só sorrisos e vontade de se divertir na extensa pista de dança.
Os músicos, aliás, se dispõem diante da pista, sentados à volta de uma mesa em estilo colonial e brincando com os velhos amigos que, invariavelmente sentam perto deles para prestigiar os arautos de tantas noitadas maravilhosas.
Em termos do vil metal, ao contrário do que se poderia imaginar, a casa é até bem barata. São R$ 10,00 de entrada e cada garrafa de Brahma ou Skol custa razoáveis R$ 4,00. A capirinha de pitanga e as cachaças mineiras são bastante procuradas e os petiscos vão das tradicionais “fritas” aos pastéis e filés aperitivos.
O caldinho de feijão é bom de não querer mais parar de beber e o clima é envolvente demais, mesmo para aqueles que nunca freqüentaram lugares de Samba e Chorinho.
As mesas são confortáveis, os garçons educados e atenciosos, a freqüência não podia ser melhor, a decoração uma gracinha, a música sensacional. Até mesmo os banheiros são muito bem cuidados.
Vale aparecer por lá para dar uma olhada!
Produzido pela Universidade do Estado do Arizona, “Becoming Human” é um exemplo do potencial de comunicação da Internet, disponibilizando um documentário que usa imagens, música, locução e interação do usuário, para disponibilizar farta documentação acerca da teoria da evolução, recentes evidências e até o acesso às novidades sobre o tema na imprensa internacional.
Quando trabalhava com multimedia a noção de Internet era ainda uma criança de colo e ninguém a ela tinha acesso. Os CD-ROMs eram algo relativamente novo e considerados um efetivo meio de distribuir media rica, como textos formatados, áudio, animações e vídeo…
…a meu ver, pouca coisa boa foi realmente produzida na época – em termos de material útil, informativo, educativo e enriquecedor – com poucas exceções.
A Internet é muito bonitinha, até bastante útil, um tanto superestimada, mas nos dá condições para disponibilizar material de qualidade, acessível a partir de qualquer país sem maiores problemas de distribuição.
Donald C. Johanson é um dos mais renomados paleoantropologistas do mundo e dedicou os últimos 25 anos coletando, analisando e estudando fósseis com o objetivo de descobrir as origens do Homem.
Quando, em 1974, descobriu o mais antigo ancestral humano – batizado de Lucy e denominado Australopithecus Afarensis – Johanson provocou controvérsia na Comunidade Científica e, ainda jovem, ganhou fama e a oportunidade de fazer muito mais pelo estudo das origens do Homem.
O site, BecomingHuman.org apresenta um documentário em módulos, com belíssimas fotos, material de locução profundamente rico em conteúdo, diagramas elaborados, modelos tridimensionais interativos inéditos e jogos educativos com didática invejável.
O documentário em si pode ser visto em cinco diferentes etapas – Prólogo, Evidências, Anatomia, Linhagens e Cultura – cada uma delas com cerca de cinco à oito minutos, que podem ser acessados pelo clique na etapa ou mediante o uso de uma barra de progresso que pode ser facilmente acessada.
No durar da locução e das animações notas de “Learn More” são exibidas, permitindo ao espectador acessar conteúdo informativo adicional opcional sem prejudicar a narrativa do documentário.
É possível ainda acessar uma linha de tempo na região inferior da tela, que disponibiliza o mesmo material, independente do ponto em que se está no documentário.
Botões inferiores permitem ainda o acesso aos modelos tridimensionais dos crânios de hominídeos das linhagens registradas e dá acesso a um glossário, notícias e webSites relacionados ao tema.
Em um mar de inutilidades e futilidades, Becoming Human desponta como um centro cultural virtual, uma espécie de museu que, de fato, é interessante para jovens e adultos e mais rico e barato que uma produção do Discovery Channel.
Problemas? Sim… é em inglês. Mas sugiro que vejam ainda que tenham um inglês meramente razoável. Pois a locução é clara e o acesso aos controles de voltar e adiantar o filme são muito fáceis de usar.
Há casos em que um filme não pode ser descrito em sinopses. Não se trata meramente de estragá-lo ou de ter sido ele um filme especial ou magnífico. Por vezes apenas foi uma indicação de alguém especial, o que faz dele um filme épico… nem sempre há palavras para descrever um filme – as vezes a palavra simplesmente falta e tudo que se pode fazer é um texto hermético e bobo, sem fundamento ou significado para ninguém mais a não ser o próprio autor.
Seja como for, “Saw” (como é originalmente chamado) é um filme que jamais vou esquecer.
Não tanto pelo que ele é ou pelo que ele pode ser; não mesmo pelos subtextos ou pela profundidade temática; mas pelo que ele representa.
A quem lê só posso dizer: “Veja este filme”… e torcer para que, vendo-o, se compadeçam de como me sinto ao pedir para vê-lo.
A dor é brutal, como a vida costuma ser, por vezes.
Parte de mim foi-se dias depois deste filme. A outra parte não é mais nada. Sou refém, agora, de uma parte de mim que abomino, e nada me sobrou para descrever ao escrever.
Só me resta pedir…
…veja este filme.
Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim…
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.
(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, sem rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.
(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou um não sei quê moderno – não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)
Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente.
Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.
Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.
Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.
Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.
Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.
(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.
Álvaro de Campos
15 de Janeiro de 1928
O mundo corporativo, como vem se tornando em toda parte, é retratado nesta comédia com talento dramático de Paul Weitz. Competentemente, Dennis Quaid e Topher Grace, nos permitem ver para além da comédia romântica que as resenhas insinuam.
Sim… eu fui em boa companhia, o que é importante. Mas talvez seja ainda mais importante o que este filme pode dizer, ainda que não tenha sido esta a intenção do escritor, diretor e produtor, Paul Weitz.
Talvez seja fato que fique marcada, de forma indelével, a cara de uma época e de uma sociedade, nos filmes, livros e na música que elas produzem; por outro lado talvez eu é que esteja “lendo demais” onde não há tanta coisa escrita… seja como for, se você está aqui, no mínimo, é porque aprecia ler qual a última presunção de Bruno Accioly – auto-intitulado um dos mais românticos, apaixonados e esperançosos profetas do apocalipse.
Seja qual for a explicação, quem lê isso aqui sabe que nenhum filme está a salvo de ter seus subtextos – intencionais ou não – escrutinados (sem “trocadalhos”, por favor) por minha cacholinha ensandecida.
Dennis Quaid vive um pai de 51 anos, com duas filhas lindas e mais uma a caminho, casa hipotecada e esposa compreensiva, inteligente e carinhosa – uma família nada disfuncional e bastante conservadora; Topher Grace é um rapaz de 26 anos, não tem filhos (e queria tê-los), precocemente bem sucedido e com uma esposa indiferente, desinteressada e fria – um casamento fadado à destruição, completamente disfuncional e desequilibrado.
Ambos são vendedores, o personagem de Topher um desapaixonado ambicioso pela atividade, mas cheio de atitude e respeitável conhecimento acerca das boas práticas do ramo; o outro com todo conhecimento que se espera de alguém há 23 anos fazendo a mesma coisa e amando cada passo do caminho.
A empresa na qual o personagem de Topher trabalha, compra a empresa de Quaid, escalando Topher para substituí-lo e começar um processo de demissões em massa.
Se não os estou fazendo rir até o momento é porque, mais de uma vez, passei por este processo e sei o quão doloroso ele pode ser.
O personagem de Quaid, Dan Foreman, passa por tudo sem muito jeito, sem conseguir saber como se portar diante de um chefe tão mais novo que ele, tendo que lidar com a gravidez da esposa, fazendo uma segunda hipoteca para cobrir os custos dos estudos da filha – que passou a morar longe dele para cursar Escrita Criativa em Nova Iorque… e, para complicar mais o roteiro, Carter Duryea, o personagem de Topher Grace, se envolve com a filha de Foreman – vivida por Scarlett Johanson.
Aparentemente inofensiva, inocente e insípida, a “comédia” despeja sobre o espectador mais atento uma saraivada de citações que chamam à reflexão e comandam que se acorde para o que se passa na tela.
Em alguns momentos fica claro que o Personagem de Topher simplesmente tem responsabilidades demais para a idade. Não só fica estampado isso nas frases do personagem de Quaid e de suas filhas, mas nas falas do próprio rapaz que acaba de alcançar o novo cargo sem tanto mérito – graças à compra de uma outra empresa.
Em outros notamos a sensação de impotência dos personagens mais velhos, que percebem a arbitrariedade do sistema e nada podem fazer a respeito, sendo julgados não por seus potenciais, atitudes ou profissionalismo, mas pelos gráficos da empresa – que cortam pessoas como se fossem meros números até por não terem como fazer diferente diante desta realidade.
Carter Duryea, de 26 anos, não trabalha porque ama o que faz, apenas para alcançar seus números, adquirir mais e nunca parar – para isso usando de um “jargonês” incompreensível e destituído de significado o suficiente para ninguém entender mas achar que tem que fazer o próprio trabalho; Dan Foreman, de 51 anos, é um apaixonado por seu trabalho e acredita que faz o que faz para o bem das empresas para as quais faz – e usa de seus princípios e dos valores de uma época que já passou.
Não é à toa que Foreman é taxado de “dinossauro”; não há lugar para significado elaborado, responsabilidade moral e baboseiras do tipo em um mundo dinâmico e de decisões rápidas (e necessariamente irrefletidas). “Risco calculado… erramos e aprendemos… mas não gastemos tempo com princípios e ética!”
Acentuando a perspectiva do roteiro e exagerando nas cores, temos um invasor que pilha, prejudica e pisa em tudo o que é das gerações anteriores só porque é de sua natureza e que, ainda por cima, toma para si a filha daquele que antes era o senhor do castelo.
Sempre se pode afirmar que eu sou paranóico com relação a Globalização do Pensamento e com o International Way of Life, entretanto, Teddy K., o dono da empresa que compra, sucateia com idéias improcedentes, usa de discursos retóricos a qualquer custo e destitui os direitos morais do empregado do significado inerente que neles existem… e isto acontece em toda parte.
Exagero? Talvez, mas sabe qual o nome da empresa no filme?
Global.com…
…e a defesa descansa…
A boa notícia, contudo, está em como ambos os personagens conseguem se harmonizar e respeitar mutuamente ao relaxarem suas relações. Ao abrirem mão do cânone globalizante para serem eles mesmos e encontrarem suas próprias saídas, finalmente conseguem alcançar um novo caminho em direção ao bem comum.
O problema de nenhum dos dois personagens é conhecimento – há muito que não é este o problema. Há que se descobrir, contudo, que precisamos de atitude para nos dispormos a encarar o que não queremos conhecer e sabedoria para alcançar a noção de que há muito mais para se conhecer nos lugares onde nada se vê.
Foreman, enfim, descobre que precisa fruir de sua relação com a nova geração, e reconhecer seu potencial, para poder conseguir mais dinamismo e funcionar na nova ordem; Duryea, por sua vez, que há mais jornada entre os pés e o correr que o que se encontra sobre uma esteira ergométrica… e que não há nada como singrar, avidamente, o caminho em direção a um pôr-de-sol que jamais será alcançado.



