Alguém se lembra de Além da Imaginação? Alguns sim e outros não, eu presumo; mas foi ao ar um episódio, uma vez, do qual eu queria falar um pouquinho.
Como devem imaginar, ninguém matou a minha babáMais conhecida como televisão… : ) quando eu era mais novo e, talvez por isso, cresci assim: forte, bonito, corado, modesto e obcecado pela telinha.
Tá certo… a TV aberta conseguiu piorar muito desde que eu era garoto, mas eu me lembro que “Além da Imaginação” – em sua versão original, apresentada por Rod Serling – era veiculado para o deleite de fãs de todas as idades.
Depois de um longo e tenebroso inverno sem o programa, a Rede Globo resolveu, no final da década de oitenta, comprar alguns episódios da nova versão da série nos EUA. Já colorida e com uma linguagem menos pesada e sombria, o formato era um retrato dos novos tempos, atendendo a mais demografias e tal.
Pessoalmente eu gostava de todos os episódios mas, recentemente, lembrei-me de um episódio em particular com o qual me identifiquei profundamente.
O nome do episódio era “WordPlay”, ou “Jogo de Palavras”, e contava a história de um vendedor que, em vista da entrada de uma nova carteira de produtos médicos com nomes estranhíssimos, tinha de estudar avidamente o novo catálogo. O trabalho hercúleo era inviável, daqueles que o chefe dá pra nós quando sua esposa dormiu de calça jeans na noite anterior.
O sujeito, contudo, se sente relativamente pronto para encarar mais um dia de trabalho à luz da nova realidade que, de forma tão inesperada, se fez presente em sua vida profissional.
O dia vai até transcorrendo bem, com quase imperceptíveis mas bizarras ocorrências envolvendo palavras. Ao telefone, por exemplo, um cliente menciona seu 17º “capacho”, no lugar de “aniversário”. Os incidentes, contudo, até esse ponto eram sutis demais para ocuparem a mente mais que por um breve momento.
As coisas vão se precipitando a medida que o episódio avança e, com o tempo, o personagem principal passa a compreender uma quantidade substancialmente menor de palavras, frases até que, por fim, não consegue mais entender absolutamente nada do que lhe é dito pelos outros personagens. Até mesmo seu nome ele não mais reconhece.
Antecedendo o fim do episódio, passa por um traumático incidente em que tem de levar seu filho hospital junto com a esposa. Sem ter sequer condições de explicar ao atendente o que está acontecendo, fica claro que sequer tem condições de tomar conta de sua família e deixa tudo a cargo da esposa.
Na cena final, está sentado no quarto do filho, folheando as páginas de um livro infantil… Em uma das páginas, abaixo do desenho de um cão, constata, já resignado, que o significado de tudo a sua volta lhe escapara. Nas páginas do livro, que até uma criança entende, abaixo dos traços de um cão mal desenhado, a palavra “cadeira” se estampa com a violência que só a realidade consegue se impor.
Às vezes, por curiosidade, rebeldia ou loucura mesmo, alguns de nós teimam em seguir caminhos pouco óbvios, não tanto percorridos ou bastante perigosos, de repente não mais conseguindo, ao olhar para trás, ver as margens da realidade, da conformidade ou da sanidade.
Em “Missão: Marte”, o personagem vivido por Tim Robbins, por amor a esposa e por sentir o peso da responsabilidade sobre os outros tripulantes da nave que comandava, dá um salto para morte sem qualquer chance de retorno, terminando a deriva, caindo em direção ao Planeta Vermelho.
Em “Gattaca”, o personagem vivido por Ethan Hawke, tentando provar seu valor como indivíduo, como ser humano, vai além do que sequer entendia como impossível.
Abrir mão do próprio conforto, sacrificar-se por uma causa ou mesmo morrer por algo que se considere como mais importante, nem sempre é absurdo ou radical. Em alguns casos, a realidade é muito mais radical que tais atitudes. Globalizar uma noção de Válido não torna Inválido aquele que discorda da noção vigente.
Por vezes, a distância que resolvemos percorrer é grande demais, ousada demais, excêntrica demais… e mesmo percebendo outros tantos desistindo de ir tão longe ou sequer se aventurando àquelas paragens, em um gesto de calculada renúncia – que alguns chamariam de insensato – não guardamos forças para as braçadas de volta.
Steve & Marta´s Web . Wordplay . Resenha
Wordplay . O episódio em cenas…
Steve & Marta´s Web . Storyboards dos episódios de Twilight Zone
Steve & Marta´s Web . Site de dois fans de Twilight Zone
IMDB . O Diretor do episódio: Wes Craven
IMDB . Atores convidados para Twilight Zone
Totse.com . Episode Guide
TwilightZone.org
TVTome . O ator principal: Robert Klein I
IMDB . Robert Klein I
Gattaca . Links para sites que discutem o filme
Já houve tempo em que eu me perguntava qual a real utilidade das coisas. Ultimamente tenho tentado parar de me perguntar pois, em muitos casos, não há resposta.
No elevador, indo para o almoço, eu, Mairus Maichrovicz e Vânia Azevedo, conversávamos brevemente.
Intrigada pela câmera fotográfica que o Mairus carregava a tira-colo, Vânia perguntou: “Vai tirar fotos por aí?”
Ao que o sujeito respondeu: “Não… é que minha máquina fotográfica tem um celular embutido. Tenho de levá-la sempre comigo.”
Entrando na onda eu mesmo indaguei: “É mesmo? Que moderno!”
Mairus, sem perder a pose, retruca: “Pois é… A câmera é ótima, mas o celular tem um chiado meio chato.”
A Vânia, já nos conhecendo e acostumada com nossas inexplicáveis viagens Monty-Pytonianas, já havia desistido de nós havia algum tempo.
“E a cobertura?” – continuei eu – “É boa?”
Ao que o Mairus me respondeu: “A cobertura é ótima! O problema é o alcance… só consigo falar com celulares no raio de 50 metros do meu.”
Sem pestanejar, não me acanhei: “Ah! Mas já é um avanço!”
Ok… estamos brincando e tudo mas, a meu ver, é exatamente esse o rumo da tecnologia nos dias de hoje.

O fictício pesadelo tecnológico EOS 10cel.
Com bluetooth, Wi-Fi, FireWire, MP3 Player,
Rádio-Gravador e acesso à Internet (claro)!
“Talento não é desculpa”, eu ouvi um grande amigo dizer um dia e, a despeito do contexto e da intenção do autor da citação, fica muito claro que Talento não é mesmo desculpa para quase nada…
…e definitivamente, Talento NÃO é desculpa para DEIXAR de executar uma boa idéia, um sonho antigo ou uma obra que – independente de não ser vista por ninguém como arte – tem o valor intrínseco emprestado pelo simples fato de que foi levada a cabo!
O 5arcasmos |v|últiplos recebeu a ilustre visita, recentemente, do meu chará-de-nome-e-sobrenome Bruno Accioly e Haruki Kume, da A&K Filmes, que me acharam, provavelmente, graça ao Google – que foi o responsável por eu mesmo tê-los achado em Agosto passado.
Ambos são responsáveis pela execução de um número respeitável de filmes independentes dos quais, provavelmente, você nunca ouviu falar.
O comentário não foi nada pejorativo. Semana passada vi uma entrevista do Arnaldo Antunes na TV a cabo acerca de sua obra “Nome“, de 1993, produção de subjetividade multimedia .
Na entrevista, Arnando Antunes se viu diante da pergunta: “Como você encarou o fracasso da sua obra ‘Nome’?”, ao que respondeu, sem dificuldade, algo como, “Não entendo ‘Nome♫’ como um fracasso artístico, mas como fracasso de crítica. Até mesmo o fracasso comercial é questionável, uma vez que a crítica tem profundo impacto no que o consumidor acha que deve comprar”.
Goste você ou não de Arnaldo Antunes, ou de “Nome”, não importa. Ele de fato fez alguma coisa. Esconder-se por detrás do ombro de gigantes para não fazer aquilo que seu potencial latente lhe permite, está muito aquém do que devia-se esperar de si mesmo.
Meu tio, certa vez me disse, “Escreva… mesmo que ninguém leia, escreva. Nunca se sabe nas mãos de quem isso acaba; não é uma questão de dinheiro, mas uma questão da importância que você tem no seu espaço. Tudo o que você fala e escreve, tudo que alguém escuta e lê, modifica o seu em torno”. Ele disse isso pois soube que eu pretendia parar de escrever. Como resultado, não parei.
Apesar do que o senso comum alardeia, a produção de subjetividade – ou a obra de arte – que nunca é lida ou vista, tem importância. No mínimo tem importância para o autor, lhe permitindo refletir e fruir a essência de si mesmo, em meio ao processo de criação, o que acaba por verter-se para o mundo através de seu discurso e atitudes.
Bruno “Que-não-sou-eu” Accioly e Haruki Kume são pessoas especiais, que insistem em produzir filmes (veja só!), em um mundo onde para manter uma obra nos cinemas é necessário gastar, por baixo, 10 milhões de dólares em marketing. Para mim, quem faz filmes, de fato, são eles, e não essa indústria fria e orientada a resultados que, em última instância, passaria a vender Balas Juquinha se estas fossem mais lucrativas!
Revisitando o que vêm produzindo tive a oportunidade de perceber a sutileza e sensibilidade da direção que, com ar de troça e insuspeita humildade, invade o espectador com mensagens tocantes e cheias de significado.
Redimindo-me dos comentários acerca do elenco, tenho de admitir que há um belo trabalho sendo desenvolvido pelos atores, sobretudo em “Bate Papos de Outono” e “Dedicação”. Não se trata, obviamente, de um material convencional ou conservador em sua execução, mas de um discurso cinematográfico próprio e íntegro.
No fim, aquele que não expõe as próprias poesias, dado o tamanho do nariz, subestima aquele de quem as esconde… Se as expusesse, afinal, talvez fosse possível, então, olhar para além da grotesca forma que a insegurança força o autor a acreditar que existe.
Eu? Eu vou seguir o conselho de Haruki Kume, deixar de temer ser menos que Orson Welles e filmar logo meu humilde “Indivisível”!
Com direção de Paulo José e produção de Carlos Manga, “Agosto” é lançado sem alarde em DVD, enriquecendo as prateleiras das lojas especializadas.
Aconteceu em Agosto de 1954, mas eu só comprei em Novembro de 2004.
Magnificamente dirigida e produzida, a série “Agosto”, que foi ao ar pela Rede Globo de Televisão na década de 80, está disponível em DVD. Foi uma espera longa para mim, um cara que não costuma apreciar tanto as séries televisivas nacionais.
A caixa, cuja humildade despretensiosa salta aos olhos, não depõe contra a edição bem feita das vastas horas filmadas, viabilizando o produto sem comprometer demais o resultado final.
O material extra é exíguo, trazendo o clássico making-off, que fala mais dos efeitos especiais que de qualquer outra coisa – saído direto do Vídeo Show – mas consegue ser comovente ao documentar um recente e descontraído papo entre Paulo José e Carlos Manga, no qual se elogiam mutuamente e falam de alguns detalhes belíssimos do trabalho que desenvolveram.
A série transformada em um filme que se espalha por dois DVDs é densa e cheia de significado histórico, não tomando partido de Carlos Lacerda nem de Getúlio Vargas, contando a história do suicídio deste último, que começa pelo atentado ao primeiro e que tem como resultado a morte do Major Vaz.
Deslocando o eixo da narrativa do evento histórico, Paulo José e Carlos Manga fazem um belíssimo trabalho em filmar a obra literária de Ruben Fonseca, que se concentra numa história paralela envolvente com o personagem antológico vivido por José Mayer: o Comissário Mattos.
A expressão de todos os defeitos e qualidades masculinas, Mattos é um policial íntegro e incompreendido. O ex-advogado erudito, apaixonado por Ópera e pelo próprio passado é todo virtude e retidão. Fadado ao sofrimento e a sua destrutiva natureza romântica, o personagem noir é um mártir anônimo, o símbolo de uma virtude rara em um país cuja relatividade moral é raramente trazida a baila.
Tal relatividade é encarnada de forma magistral por Carlos Vereza, que acompanha o personagem de José Mayer sem compreende-lo completamente mas admirando-o como ninguém mais.
Se a direção é irrepreensível, o que dizer do elenco, encabeçado por José Wilker, Vera Fischer, Hugo Carvana, Letícia Sabatella, Elias Gleiser, Lúcia Veríssimo, Rodolfo Botino, Marcos Winter, Sérgio Mamberti e Norton Nascimento, com deliciosas aparições de Ary Fontoura, Lima Duarte, Mario Lago e Paulo Gracindo.
É inusitado, mas o soturno personagem Gregório Fortunato, o “Anjo Negro”, chefe da segurança de Getúlio é vivido de forma surpreendentemente convincente por Tony Tornado.
A quem recomendo a compra? A quem é Brasileiro!
“Era uma vez uma formiguinha que ficou com o pé preso num floco de neve.”
Não sei se alguém se lembra disso, mas eu costumo lembrar de três a cinco vezes por ano.
Quando era pequeno (sim, eu já fui pequeno) tive a oportunidade de ler uma fábula muito bacaninha. Naquela época as fábulas eram só bacaninhas pra mim, nada mais que isso. Ok… talvez eu percebesse alguma profundidade até então inalcançável para mim em algumas das fábulas que minha mãe lia para mim ou nas que eu ia encontrando pelo meio dos livros que ia lendo com dificuldade.
O fato é que essa fábula deixou uma marca indelével na minha cachola e acabou que nunca mais consegui me livrar disso.
Nos dias de hoje, em que as fábulas são consideradas bobas por quase todas as crianças que têm a idade que eu tinha (e possivelmente mesmo pelas outras crianças de minha idade na época), minhas fábulas são outras. Fico com os filmes que falam de totalitarismo, com os livros que falam dos tempos que já passaram, com as poesias que pouca gente lê e com a vontade de escrever minhas fábulas com um pouco mais de regularidade.
Gostar de fábulas é um dom e uma maldição. Me lembro que, desde pequeno, me interessava pelas palavras e frases, pelos parágrafos e livros, de uma forma muito diferente de meus colegas. Lembro-me de amar ficar até tarde vendo filmes ruins na televisão e, permissivamente (diriam uns), identificar o que de bom havia ali, extraindo do tempo que eu gastava com aquilo algo que eu pudesse aprender.
As fábulas são tão ruins ou bobas quanto quem não as entende, e tão magníficas e surpreendentes quanto quem as entende. Há tanto numa frase quanto cabe dentro de você, muito mais do que cabe entre a primeira e a última palavra que a compõe.
Apreender, de alguns parágrafos aparentemente inocentes, signos que abram portais para novos universos, é ter a disposição um mundo maior… é encontrar, na pobreza aparente das coisas, a riqueza escondida em si mesmo.
Cada um vive como quer, claro; e viver como eu – que presunçosamente sofro de gostar de ser como sou – nem sempre é fácil.
Dói ser tão verbal e gostar de escrever e conversar… e quase sempre perceber que só um ou dois, de todos que se conhece, concordam com sua visão de mundo. É tão sôfrego isso quanto o era quando uma menininha do primário não gostava de mim por eu querer ser astronauta.
No final, ser diferente – ou pensar-se diferente – pode ser muito doído.
O curioso é o motivo que me levou a escrever esse pequeno texto: o fiz graças a ter visto ontem “Condenação Brutal“, com Silvester Stallone – vai entender!
O enredo do filme incomoda a muitos dos adoradores de filmes de ação e pancadaria estrelados pelo astro, que encarna um sujeito íntegro e que faz de tudo para não se meter em confusões, apesar de estarem todos querendo que ele o faça.
Não que o filme, de um modo geral, tenha uma profundidade temática intencional evidente ou coisa que o valha, mas apesar de todos os obstáculos, cada filme, para mim, até hoje, é uma fábula, uma parábola, uma alegoria da qual é possível apreender mais do que a soma de suas partes mais óbvias.
Frank Leone, seu personagem no filme, ajuda os presos a reformar e botar para funcionar um Mustang antigo que acaba se tornando um símbolo do que aqueles pobres diabos conseguem construir juntos, apesar da opressão de seu entorno.
Depois de pronto, o carro fica belíssimo e funcionando como um relógio. O diretor da prisão, Drumgoole – vivido por Donald Shutterland – acaba por ordenar a destruição do veículo por alguns dos outros detentos.
Após sair da “solitária”, Leone volta à oficina da prisão, onde estão todos revoltados por terem tido seu carro destruído. Eles dizem querer vingança. Leone, furioso, esbraveja algo como: “Vocês realmente acham que este carro é seu?! Estamos em uma prisão! Trabalhamos neste carro, nos divertimos com isso, foi incrível, mas é só! Esse carro não é de vocês! Esse carro é de Drumgoole!”, e continua, “No momento em que começarem a acreditar que este carro é de vocês, vocês se tornam propriedade de Drumgoole também! Não entendem?!”.
Pode parecer curioso que este pequeno discurso tenha desencadeado este texto mas, para mim, a relação entre os detentos e “A Formiguinha” é deliciosamente óbvia.
Vale a pena procurar o filme na locadora ou TV a cabo… é um bom filme, afinal. Mas mais que isso, vale a pena questionar se a locação, a fatura da NET ou mesmo o enriquecimento pessoal, não ficam mais valorizados ao admitir que o trabalho de apreender todo um universo de interpretações e possibilidades, pode ser muito mais interessante do que a atitude passiva de compreender o filme como a soma dos minutos que perfazem suas duas horas.
Frank Leone, em “Condenação Brutal”, passa o filme todo tentando se afastar de problemas e se concentra em levar sua vidinha Zen dentro dos muros da prisão, engolindo cada um dos sapos que Drumgoole coloca em sua frente.
A pobre formiguinha vai ficar para sempre presa na neve se não tomar uma atitude e descobrir como se livrar do que está entre ela e a liberdade.
Por mais inexpressivo e inócuo que tenha sido este texto para alguns, quero crer que outros, ao lê-lo, consigam se livrar de todos os obstáculos entre si mesmos e a descoberta de que o senso comum não é senão uma idéia e que há muito mais entre as linhas de um texto e os minutos de um filme, que a soma de suas partes.
Segue a fábula “A Formiguinha e a Neve”
Baseado em um projeto de faculdade de George Lucas, escrito em 1967 e com o auxílio de produção de Francis Ford Coppola, THX 1138 é uma obra prima do gênero e a frente de seu tempo tecnicamente.
Há algum tempo quero escrever acerca desta refilmagem do anônimo “THX 1138:4EB”, escrito e dirigido por Lucas na University of Southern Califórnia. Resultante deste trabalho final de faculdade, “THX 1138” foi para mim um desses filmes que – antes da TV a cabo – ao ligar o aparelho na Rede Globo, acabei encontrando algo que o Departamento de Perpetuação da Decadência Televisiva deixou passar.
Muita gente gosta de cinema. Pessoalmente, gosto de ver filmes mas, ultimamente, me parece mais que isso… parece-me que gosto de ter contato com as histórias que as pessoas contam. Em quanto mais níveis estas histórias funcionarem melhor para mim. A cada frase adicional viajo por significados cuja autoria oscila entre a intenção do autor e minha interpretação daquela realidade que diante de mim se dispõe.
“THX 1138” pode bem ser um filme de ação econômico e denso, sendo capaz, contudo, de ser muito mais do que isso. Como seu primo mais velho, “1984” – de outro George – o filme de Lucas pode ser fruído com superficialidade sem, entretanto, deixar de ser flexível e subjetivo o suficiente para que o espectador mergulhe em toda sua profundidade temática.
O personagem principal, incentivado pelo construto social do qual desfruta, ingere substâncias que o ajudam a ser “um ser humano melhor” sob muitos aspectos. A escolha é dele, como tantas outras. É ele também, que escolhe o holo-canal que vai assistir, dentre uma vasta programação cuidadosamente desenvolvida que contém o sexo proibido pelo Estado, a violência coibida pelos sedativos e a dança, que não parece guardar qualquer relação com o ambiente acético e inexpressivo no qual ele existe.
Para a comodidade de todos, cada armário controla a ingestão de substâncias de forma a impedir que um cidadão seja prejudicado pelas drogas ingeridas, o que prejudicaria o sistema como um todo.
Já havia visto o filme algumas vezes, o que acabou mesmo sendo responsável por tê-lo adquirido em DVD. Valeu a pena. O produto final de Lucas – a versão adulterada pelo diretor, claro – surge timidamente nas prateleiras como um filme moderadamente desconhecido mas profundamente importante, que entraria fácil para o gênero “filme-chato” segundo muita gente, como quase todo filme importante.
O que posso dizer é que este é um daqueles filmes que você pode contar inteiro e que não fará lá muita diferença, pois o impacto da experiência pessoal com o filme supera qualquer narrativa fornecida previamente.
Para quem se interessa por saber mais sobre a história e sobre minha visão acerca dos subtextos que a permitem funcionar em tantos níveis, vale clicar no link abaixo:
ATENÇÃO: O texto a seguir comenta a história do filme!
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Foi menos divulgado do que todos nós gostaríamos, mas desde o início deste ano o Instituto Moreira Salles passou a disponibilizar na web uma parte substancial de seu acervo de obras raras.
Este novo Espaço Cultural Virtual é extremamente valioso para aqueles que almejam entrar em contato com a cultura nacional e não conseguem encontrar facilmente informações acerca de fotografia, música, literatura e teatro.
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O sistema de cadastro pode parecer um tanto enigmático para os menos atentos, mas basta preencher o formulário e certificar-se de que a opção “Acesso aos conteúdos exclusivos” esteja selecionada.
O material reunido pelo Instituto Moreira Sales consiste em uma das mais importantes coleções do país, conservadas com o uso de técnicas especializadas e por profissionais extremamente competentes.
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Dentre o acervo musical deste Espaço Cultural Virtual estão mais de dez mil obras produzidas entre 1902 e 1964, sendo Pixinguinha, Orlando Silva, Carmem Miranda e Noel Rosa alguns dos nomes de compositores e intérpretes disponíveis.
Iniciativas do tipo são raras em nosso país e o mérito do projeto é inequívoco, mesmo não sendo a Internet um meio tão democrático quanto todos nós gostaríamos que fosse.
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